PESSOA CANHOTEIRA QUE VAI POR AÍ...
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| foto: gshow.globo.com |
Seria mais prudente, pensando na carreira do cronista, evitar estes espinhos. E não pensem que o cronista entende sua opinião como necessária. A síndrome de herói está no passado, e aquele garoto que iria mudar o mundo entendeu o desmatamento que a existência é. Tampouco arquitetaria idolatrias infantis a partir de um programa de entretenimento, capitalista e recheado de tortura psicológica. Obviamente, o cuidado faz-se precioso para alguém politicamente à esquerda, porque os canhoteiros “chicosos” tendem a depreciar intelectualmente os prazeres da escala 1x6, como o futebol, a novela e o Reality. Por essa razão, tratar de BBB pode ser de uma complexidade filosófica e de uma irrelevância perigosa, simultaneamente. É maravilhoso a esquerda tuiteira estabelecer um espaço de disputa política a partir dos seres humanos e seus comportamentos em um programa de entretenimento sádico, desumano e liberal. Em tempos difíceis e idiotas, todo espaço de combate precisa ser disputado e, assim sendo, o cronista irá para longe de Focault e para perto da fofoca.
Conforme fora mencionado, o BBB é uma
experiência capitalista de milhões e milhões. São milhões de pessoas
assistindo, milhões em prêmios e, principalmente, milhões em lucro e
propaganda. Soma-se a isso um festival de torturas psicológicas de várias
substâncias, a exemplo da reorganização do alimento e sua quantidade – fome não
é o que se sente entre almoço e jantar - o confinamento em si, a privação de sono,
exigências físicas, obrigações de apontamento tóxicos para um semelhante e por
aí vai. Definidos estes parâmetros infernais – sem relógio, sem livro, sem
bola, sem paz - as dúvidas do porquê o ser humano adora ver outros seres
humanos nessas condições de conflito e limite emocional são perguntas da filosofia
e, com a devida licença a George Orwell, o cronista não possui repertório para
formular tanto; mas vai arriscar em outro tipo de análise, porque diante da situação
limítrofe que envolvem as milhões de pessoas de esquerda, em especial pelo
twitter, e os participantes do reality até a presente data, o cronista deve se
comprometer.
Comprometimento é uma palavra comprida,
tóxica e conservadora. Comprida porque exige um velho poço de coerência onde as
pessoas costumam morrer na queda ou com água nos pulmões; note que nós, além de
incoerentes, somos presunçosos; essa audácia de exigir do outro determinado
tipo de conduta é arrogância fantasiada de altivez.
A toxicidade se dá porque poucas coisas
são tão violentas quanto impossibilitar, através do discurso, o outro de mudar
de ideia ou posição. A agressão sutil do apontamento e da coerção, quando feita
com o ardil da intelectualidade e da ironia, pode ser ainda mais nociva, porque
furar uma bolha no dedo pode doer mais que alguns socos e conduzir pessoas à
beira do precipício é perverso e radioativo, pois faz da falta de respeito uma
espécie de sinceridade. Ou seja, é a tortura fantasiada de personalidade. – Ué,
mas se essas posturas e estratégias são de exposição, como comprometer-se pode
ser algo conservador? - Ora, eis aqui o famigerado jogo externo dos privilégios
provenientes do capitalismo, e isso merece um parágrafo próprio.
O BBB não é um mundo paralelo, e
justificar com a simplória ideia de que a decisão pertence ao público é sofismo
barato. O reality, como a vida, está permeado por relações humanas baseadas em
poder e origem. É a velha máxima do Brasil escravocrata, “manda quem pode e
obedece quem tem juízo”. Por isso é tão importante entender o conservadorismo
dentro da ideia de comprometimento. Ligue a televisão, acesse o GloboPlay e
procure o Reality que mostre o dia-a-dia do seu trabalho. Será impactante a
revelação dos privilégios de uns, em detrimento das necessidades de outros e
outras, a exemplo do poder opinativo do advogado e o silêncio da faxineira. Ter
posicionamento, contundência nas falas e defender suas certezas, por mais que
seja uma característica de folhagem linda e colorida, é uma árvore cujo tronco
são os privilégios socioeconômicos, com raízes emocionais e psicanalíticas que
o dinheiro pode comprar; como nunca ouvir não, estudar, adquirir cultura, ter
empregados, fazer terapia, academia, falar francês e comer figo com presunto Parma.
Para o cronista, o debate que importa para esquerda via BBB é esse, embora
espinhos culturais da misoginia possam fazê-lo despencar da árvore com o
quádruplo da força da gravidade. Contudo, o papel é feito para escrever. Ou melhor,
comprometer-se. Então resta para o texto afirmar a seguinte formulação: quando
uma pessoa com esse estofo de condições da vida materialista vai ao programa
que vale dinheiro, fala em comprometimento como estratégia e exige um firme
posicionamento de pessoas que nunca tiveram nada, no fundo a pessoa alardeia um
conservadorismo travestido de comprometimento voraz. Porque se a pessoa sabe e
reconhece o seu privilégio externo, e usa isso para alavancar seu protagonismo
e personalidade, e vê-se no direito de cobrar posturas daqueles que mais precisam
do dinheiro, fica exposta uma forma de conservar este próprio privilégio,
porque sabe que professoras, músicos, faxineiros, motoristas e secretárias,
sendo adultos, chefes de família e responsáveis, sempre pensarão cinco milhões
de vezes nas consequências, antes de colocar tudo a perder; Por isso, eis aqui
o cinismo e o autoritarismo fantasiados de coragem.
O
BBB não é um jogo de comprometimento e coragem. O BBB é um jogo de
oportunidades financeiras baseado em realidade, agonia e inversão da ética. Confinar
dentro de uma casa todas as tensões e disputas políticas, raciais, estéticas e
culturais que existem fora da casa é pura realidade. E aqui o caldo engrossa de
vez. Setores da militância de esquerda, das ruas e redes, têm feito um enorme
esforço para levantar o tal “esvaziamento de pauta” pelos participantes lá
dentro, e reivindicado cada milímetro de palavra torta de um participante para
“cancelá-lo” aqui fora. Em algum ponto do coração humano, que sempre transita
entre Jesus e Shakespeare, as pessoas costuram cinco milhões de justificativas
para regimentar a própria tese, que em um Reality massacrante e capitalista,
sempre será uma teoria violenta. Há alguns canhoteiros que agem herculeamente
na direção de uma narrativa messiânica, e consequentemente, pitoresca. Evoca-se
misoginia e ideologia para a cruzada de forma absolutamente irresponsável. Não é
possível falar de pedagogia berrando! E o BBB é arranha-céu de berros. Mesmo
quando o tom de voz está no térreo, ainda sim, é truculência. E a contradição
aumenta! Pessoas de esquerda que separam o que está lá dentro do que há aqui
fora beira o inacreditável, escancarando uma hipocrisia contumaz. Como pode a
esquerda corroborar a narrativa dos racistas do futebol para apoiar determinado
enredo no BBB? Quem acompanha os diferentes casos que envolvem racismo no
esporte, conhece os argumentos dos racistas a respeito do tema: “não é bem
assim”, “ele também disse tal coisa”, “ele provocou”, “dentro das quatro linhas
é outra coisa”, “o Pelé nunca reclamou”, e muitos etc. Pois bem; pessoas
progressistas estão pautadas nessa mesma separação, entre a vida e o jogo; tudo
para invalidar uma tensão racial nítida da edição do BBB26. Com o devido
respeito, essas tensões sutis ou explícitas, desnudam o grau de absurdo que
pessoas ditas canhoteiras chegaram. Assistir alguém é diferente de morar com
alguém! O que espanta o cronista é parte da esquerda não perceber o quanto
múltiplos comportamentos que envolvem o jogo – voto, agressividade, ironia,
humilhação e deboche – e o cotidiano – saber fazer tarefas domésticas simples,
adotar uma postura de apatia para lutar por provas, e orgulhar-se disso – são
tensões raciais e socioeconômicas absolutamente legítimas para serem apontadas.
Isso não transforma ninguém automaticamente em racista. Entretanto, se um
participante de esquerda refuta isso e seus torcedores também, fica
estabelecido para o cronista o uso ególatra, vaidoso e capitalista da cor
vermelha. Este vermelho é o da bandeira do Benfica. Este vermelho é o da
bandeira estadunidense.
Apesar de o cronista esforçar-se para não
filosofar demais sobre a fofoca, chama a atenção a inversão completa da ética.
De alguma forma, a humildade realmente se tornou um defeito para os romanos
adoradores de Reality do século XXI. Figurativamente, é como se os olhos se
derretessem mais por sangue do que por um croissant amanteigado. Talvez o que
explique esse amor ao ódio seja um dos maiores trunfos do capitalismo atual: o
céu nublado.
O mundo carregado de nuvens com chuvas de
“eu, eu, eu” e “ like, like, like”, ajudam a produzir supreendentemente a
aliança do culto ao próprio corpo e “autoestima é mais importante que tudo”,
com a apropriação liberal do conceito de empoderamento. Nesse sentido, a Nívea
é o menor dos problemas, porque o construto do ser digital abre um vasto espaço
para o produto do ser digital. Ou seja, “quem eu sou e quem eu quero ser”, “Sou
o que sou” e por aí vai. Só que para além dos coachs”, reside uma ideia
transformada em consenso de aceitação e permanência. Possivelmente, até por
autodefesa, as pessoas adotem conceitos sobre si voltados para a permanência
total de suas “qualidades” e “defeitos”. “Você pode ser o que você quiser”, mas
“nunca abra mão de quem você é”. E se você estiver eticamente errado? O que
ocorre aqui é uma tenebrosa inversão ética e filosófica, porque o sujeito não
quer se adaptar ao mundo, e sim deseja que o mundo se adapte a ele. O problema
dessa porcaria de raciocínio que confunde violência com agir verdadeiramente, é
que Kant já ensinou a humanidade sobre fazer o que se quer. Isso não é
liberdade; isso é ser escravo do desejo. E essa confusão serve para o
homofóbico achar que suas posições são meras opiniões, e serve para o
canhoteiro de twitter legitimar a sua violência e a violência comportamental de
algum participante. A vitória do “eu” sobre a generosidade é a vitória do
desejo sobre a ética e, no limite, a vitória do BBB sobre a própria esquerda.
As faces e facas do BBB, e a argumentação
do cronista, cujo tamanho remete ao cabelo da congregação cristã no brasil,
precisariam levar para algum lugar em que o cronista, de fato se comprometesse.
Pois que assim seja! Qualquer pessoa está careca de saber que o mundo é um
lugar frio, sujo e interesseiro. O verbo pertence ao mundo que existe, e não no
mundo que o cronista deseja. Que se foda! Que se raspe esse devaneio lunático
que parcela da esquerda embarcou através do BBB! Os valores éticos da esquerda
exigem, em um Reality sombrio, a defesa dos participantes que mais precisem do
dinheiro para transformar suas vidas, em especial as pessoas negras e indígenas.
Um campo progressista que não defenda uma conduta que envolva humildade,
coragem, respeito e amor, e o protagonismo para essas identidades, atrapalha a
esquerda como projeto popular. Por fim, a era ultra digital capitalista projeta
e demole a narrativa do “GOAT” o tempo inteiro, tentando imputar pela
grandiosidade dos algoritmos, essa desastrosa filosofia contemporânea de que o
tempo mais importante do mundo é o nosso. Portanto, caberia à esquerda que
acompanha o BBB, o dever de acordar para a vida real, pois o ano é perigoso e o
mundo anda perigosíssimo. Para os canhoteiros que seguem a corrente majoritária
que nada tem de popular, e se farão de cegos para não reconhecerem as
incoerências, fica o lamento do cronista. O fascínio e a falácia, quando
caminham juntos costumam parir resultados catastróficos. É devastador para o
cronista ver gente canhoteira condenar um homem negro de esquerda, e
transformá-lo de forma vil, na Karol Conká da edição 26. É uma pena os
ambidestros acharem que são canhoteiros, quando sequer compreendem um fato
simples e óbvio: Quem nasce e se orgulha de ser Patricinha de BH, jamais será
Jean Wyllys! E por aí vai...

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