TANGO DO SALDO DEVEDOR


 No baile dos boletos eu dancei.

Ampliei meus passos o máximo que pude

Lá estava ela! Fitando-me, flertando!

A ilusão da virtude.

No baile dos boletos eu dancei.

Os pliés não eram tácitos. Eram tóxicos

Cá estava eu! Onde rebolei ando robótico.

No baile dos boletos eu dancei.

Esperei sentado o convite que jamais chegou.

Rabisquei nos salões

Reboquei distrações

E quando percebi que o bosque era labor

O laranja do mapa de calor

Matava-me de frio, rompia-me os tendões.

No baile dos boletos eu dancei.

Atrasei algumas vezes

Cortei-me com os cartazes

Que teimavam em frases, que eu sempre temia

Atrasei algumas vezes

O quinto dia treze

De mim não dependia.

Atrasei algumas vezes

E no baile da saudade eu não fui.

Eu nunca fui!

No baile dos boletos eu dancei.

Passei pela porta do baile da saudade

Jamais entrei.

Quem brilha no baile do aperto

Não consegue ver carinho ou coreto

No braile do boleto eu dancei.

Passei pelo baile da saudade

Jamais entrei.

E quando a vida enfim chamou-me a valsa

Ao erguer e deslizar as asas em direção à palma.

Apanhei da vida com calma.

Pois meu braço feito alça

Deu início ao balé do remorso

Ao ver o dorso da mão enrugado.

O prelúdio havia passado.

Vivi pelas piruetas, morri no mesmo tablado

No baile dos boletos eu dancei.

Porque quando fui dar play

A vida já tinha dançado.

 

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