CÊ QUE PENSA
Árvores secas diante de olhos úmidos. O corpo entupido de água esfacelado no chão. E o tronco de pé, torto e rígido. Galhos em riste mirando o céu, ou melhor, desafiando os céus. “Morrer é preciso”, pensa a árvore. “ Correr é preciso”, pensa o homem. “Morrer pelas mãos do tempo”, pensa o homem. “Morrer pelas mãos do tempo, tanto faz”, pensa a árvore. O amor e a valentia derrubam mais homens que árvores, e ambos sabem disso. Mas só a árvore sabe o quanto homens derrotados derrubam árvores. Ela, viva e estática, coberta por uma natureza desafiadora, não se importa com as horas, cobras, camaleões e escorpiões. O receio de morrer não faz parte da sua natureza! “Isso é coisa dos homens”, pensa a árvore. O homem é mais mole que um peixe. Ele caminha para a dor enquanto corre dela. “Aqui tem água-viva, aqui tem jiboia e escorpião”, pensa aceleradamente o homem. Mais refém da água que o peixe, porque o segundo nasceu para viver...