JOGO DA MEMÓRIA
Muitas coisas fazem o ser, de fato, humano. Apesar das narrativas moralizantes sobre uma pretensa empatia natural, será mesmo um atributo nosso? Um grande amigo, cujo nome não será revelado, escreveu um verso brilhante sobre a existência: “No fim das contas, o ser humano é bem mais ou menos”. A ideia cultural-religiosa que sustenta a criação do mundo como uma composição perfeita é completamente humana; a fragilidade incoerente e arrogante dessa proposição, derrotam por 3x1 a performática empatia. As dúvidas sobre a bondade natural pairam no ar. O motivo? Observe o mundo. Guerra, fome, miséria, intolerância, racismo e violência. E o curioso são os excelentes seres humanos brasileiros observarem isso na Ucrânia, Palestina e até Venezuela. Contudo, aqui me refiro ao Anhangabaú, Glicério, Moinho e Barão. Os fones e telefones móveis inundaram os trajetos no trem. A estação da ignorância atingiu patamares irreversíveis. O que agoniza o outro ignoramos. Os passos e posts argumentam algo verdadeiramente humano; porque agora, é ainda mais fácil fingir que não viu e ouviu. Um povo igrejeiro com preguiça de dizer “Não posso”, “Não tenho” e “Não consigo te ajudar hoje”. Existem meios para auxiliar o outro que superam o dinheiro! “Obrigado por revelar minha própria mesquinharia” seria de ensandecer, e nos obrigaria a interromper os tiques para dar atenção aos toques. Teríamos que pedir desculpas por como temos tratado os que amamos, os que não conhecemos e a própria vida. Isso é pedir demais aos seres humanos. A luta pela sobrevivência é uma desculpa mais pronta que coisa de comer ultra processada; chamar de comida ou alimento é um ultraje, mesmo com a máxima de que “quem tem fome come qualquer coisa”. A entrada e saída do trem na Barra Funda, especificamente a nova e privatizada Linha 7 Rubi, é uma partida da NBA quando faltam cinco segundos para o fim. A bola beijou e se despediu do aro. Uma ferrenha luta no garrafão pelo rebote está em curso. Não importa se alguém cair! Não importa se alguém é idoso! Não há falta! Não há semelhante, embora os timbres, tintas e tons pertençam a mesma escala e paleta. Pois é, isso é pedir demais aos seres humanos.
O que o ser humano faz que pertence a sua natureza? A derrota da romântica empatia e a reflexão desses construtos sociais levam nossa espécie para uma de suas piores exibições. O que sobra então? A mentira, a verdade, o desejo e o pecado? Essa apresentação da nossa espécie faz questão de ser péssima, e surge no momento mais sólido de conhecimento. Do ponto de vista da ciência, informação e tecnologia, nunca soubemos tanto sobre o mundo. O foda, não tem outra palavra, é que não sabemos nada. Por que a insistência na mentira, no sofismo e no vazio? O humano hoje acessa a maior bibliografia possível, mas odeia ler. Joga no lixo o que se acumulou de conhecimento em milênios para refundar a humanidade em moldes superados por ela própria. Perante o universo, defendem um masoquismo intelectual sem precedentes. Anti-vacina, anti-clima, anti-cultura, antas-antas! A autossuficiência do genial Caetano Veloso enfim encontrou seus alvos. Em um texto cheio de “nãos”, até que enfim um categórico “sim”. Sim, acho que a burrice é da nossa natureza.
Como viver em um mundo onde a burrice devorou a empatia? Existe alguma alternativa para os esfomeados? Casimiro Miguel constatou a burrice desavergonhada do nosso tempo, mas podemos superá-la? Certamente a resposta não estará nessas linhas. Poetas amam os soluços mais que as soluções. Mas, em algum lugar escondido dos profetas, é melhor viver acreditando que a esperança pode ser capaz de empatar com a burrice. Fundir, confundir, enterrar e parir ideias a partir de cérebros distintos pode ser útil. Talvez haja um caminho paulatino para uma nova natureza. O narrador Everaldo Marques costuma dizer que “Enquanto tem bambu, tem flecha”. Em suma, enquanto existirem professores, existirá esperança. Resta saber se haverá tempo. A transmissão de conhecimento milenar pelo “disse-me-disse” forjaram o aço do escudo e da espada, para o bem e para o mal. Essa simultaneidade dialética abre espaço para esse elemento da nossa natureza, a política. Através dela a espécie ainda respira, e somente através dela a defesa do conhecimento e da ciência são possíveis.
Onde a gente guarda a política e o conhecimento? Essa imaterialidade é um pilar crucial na busca por uma natureza humana melhor. Exatamente como a literatura arquiteta, o impalpável é um alicerce para enfrentar nossa natureza materialista vil. A escrita é a maior invenção da humanidade. O registro da História é um dos motores, e o mundo torpe e egoísta que vivemos é a prova de que ser o motor não basta. É preciso ser o volante. A memória é a grande guardiã de nossa natureza, e funciona como um verdadeiro farol da humanidade. Para enxergar, ir e voltar, dependemos de como a memória é abordada, armazenada e interpretada.
Até aqui, poucas coisas fazem o ser, de fato, humano. Um grama de empatia, 100g de política, 1kg de dialética, 100kg de burrice e toneladas de memória. Quantas vezes você jogou o jogo da memória com seu coração? Na infância ou na produção de memória de outras infâncias? Sendo pai, mãe, avô, avó, tio, tia, irmão ou irmã mais velha? Você se lembra? Entre decorar e declarar há uma galáxia de distância. As estrelas da memória e do esquecimento pertencem ao mesmo cinturão, e isso não é uma resposta. O esquecimento fazer parte da natureza humana amplia o dilema. A gente esquece o tempo todo. Vírgulas, vértices e válvulas. A vodca também participa. O humano soterrado por uma vida que ele não pediu, não escolheu e não sabe o porquê, tende a esquecer um pouco mais. Por isso o ser lembra de telefonar, mas na ligação esquece de dizer que ama. Lembra de fazer a janta mas esquece de guardá-la na geladeira. Lembra de escrever um livro e esquece de levá-lo para vender. Quantas vezes você jogou o jogo da memória com seu coração? E com o coração alheio? Eu não sabia nada sobre a natureza humana! O que penso saber vive sempre mais perto do “acho” que do “sei”. Tudo que acho construí. Em alas geriátricas cidade afora, muitas almas vivem sem saber quem foram e quem são. Lembro como se fosse ontem de conhecer uma senhora que certamente não se lembra. Lembro como se fosse ontem de conhecer uma senhora, que em razão de sua saúde, não se lembra de mim ou do que almoçou hoje. Natural, constante, intocável e imparável é o tempo. A natureza humana se costurou nesse lençol infinito, sabendo que perecerá de frio ou sufocada por ele. E quantas vezes você jogou o jogo da memória com seu coração? A natureza está morta, porque não adianta se lembrar do amor e se esquecer de amar.

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