JAMAIS ACABARÁ


   O cenário que antecedia o jogo era profundamente paulistano. Garoa, quebrada, garganta, cerveja e espeto. Os rio-grandenses acreditam deter o monopólio do churrasco, e as origens não importam por aqui. A finalidade era comer o espeto de carne cuja procedência é duvidosa, coberto por uma farofa que remete aos antepassados. Poucas coisas transformam a realidade em fantasia quanto o futebol. No Coringão, perrengue vira aventura. A memória nasceu para ser “desgourmetizada”. Você pode tentar, mas esquecer não depende exclusivamente de seus desejos.   

   A volta das torcidas organizadas deu o tom da bancada! O ritmo de torcida, como se diz entre os organizados é algo sacro para a população alvinegra. Tinha de ser especial, e foi. A garoa tipicamente paulistana convergiu poeticamente para o desafio que é ser coringão e ser gavião. É outra parada! E por falar em parada, como esperávamos, barreiras policiais para a entrada no setor norte justo no dia da volta das torcidas. Isso a Globo, o Uol, a Fórum e a Carta Capital não mostram. A Polícia Militar provoca! Frequentadores de estádio sabem disso. A Norte é o único setor do estádio com aglomeração para a entrada. Quem torce lá é tratado de um jeito, e quem torce na Oeste de outro. Quando isso mudará não se sabe, mas que “os Gaviões nasceram para poder reivindicar” é uma certeza. O sopro de 1969 é esse tornado irrefreável de hoje. No Coringão, o outrora e o hoje é a “mema fita”! Existe uma cultura de bancada; e no Coringão, ela jamais acabará.

      Para sorte do HD, junto com a caminhada veio a vitória. O Porto-alegrense ficou a pé. Se torcêssemos o espeto e o rolete, os deixaríamos de joelhos. Mas verdade seja dita, o volante do Porto-alegrense Arthur é bem acima da média para os parâmetros brasileiros. Joga muito! No entanto, foi o miolo do Coringão que nos deu essa impressão do meio-campista gaúcho. Maycon, Carrillo, Garro e Memphis são incríveis com a posse da bola; sem ela, sofrem para pressionar o portador. Não se trata de saber ou não marcar, mas de saber ao marcar, quando morder. De qualquer maneira, com a batucada de volta ao estádio, mais uma vez, a torcida impulsionou o Coringão para uma vitória bem protocolar. O time não sofreu gols e a segurança e confiança que emanam da aura do arqueiro do Todo Poderoso é impressionante. O “1, 2” de Garro e Memphis fazem muita diferença nas construções do meio para frente.

       O fio de sol que cobria Itaquera na saída do estádio, lembrava como a primavera é caprichosa. Depois de uma chuva fina e um vento invernoso, a proximidade do verão fora exposta. Uma linha entre o amarelo e o laranja riscava a quebrada de uma Cohab sofrida, valente e verdadeira. A linha laranja da camisa alvinegra possui sua beleza, embora seja compreensível os debates intermináveis sobre tradição, cultura, apropriação e capitalismo. O que não é compreensível é a imprensa chamar o Porto-alegrense de Grêmio. Como assim? Grêmio refere-se à agremiação. Pode ser estudantil ou uma escola de samba, ambos categoricamente menos racistas do que o oriundo do sul. A torcida dos “cara”, além do histórico racista, ainda apresenta uma terrível emulação dos “Inchas” uruguaios e argentinos. Péssimo para o porto-alegrense. Perderam o jogo e a oportunidade de aprender com nossa torcida, a única que canta os 90 minutos. Lembra que o futebol transforma o real em fantasia? O Coringão transformou 90 minutos de domingo em mais inspiração para as 24 horas da exaustiva segunda. A força, potência e decibel, responsáveis pela energia dos 90 minutos, são consequências dos coletivos conhecidos como Torcidas Organizadas. Essa crônica é para o Coringão e para o Grêmio; o Grêmio Gaviões da Fiel Torcida.

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