CÊ QUE PENSA

      Árvores secas diante de olhos úmidos. O corpo entupido de água esfacelado no chão. E o tronco de pé, torto e rígido. Galhos em riste mirando o céu, ou melhor, desafiando os céus. “Morrer é preciso”, pensa a árvore. “ Correr é preciso”, pensa o homem. “Morrer pelas mãos do tempo”, pensa o homem. “Morrer pelas mãos do tempo, tanto faz”, pensa a árvore.

       O amor e a valentia derrubam mais homens que árvores, e ambos sabem disso. Mas só a árvore sabe o quanto homens derrotados derrubam árvores. Ela, viva e estática, coberta por uma natureza desafiadora, não se importa com as horas, cobras, camaleões e escorpiões. O receio de morrer não faz parte da sua natureza! “Isso é coisa dos homens”, pensa a árvore.

     O homem é mais mole que um peixe. Ele caminha para a dor enquanto corre dela. “Aqui tem água-viva, aqui tem jiboia e escorpião”, pensa aceleradamente o homem. Mais refém da água que o peixe, porque o segundo nasceu para viver na água cada segundo, e o primeiro nasceu para ser escravo dela. “Melhor morrer de sede que morrer afogado”, pensa o homem.

     Camuflada pela áspera e descascada palidez dos troncos e galhos, a Cobra-Cipó está com fome e atenta aos pássaros e lagartos, “Que fome de leão”, pensa ela. E de repente, a música. O ritmo de mordida na “bolacha” – palavra simbolicamente paulista - alerta a peçonhenta de forma obrigatória. Era irresistível! Ver um marmanjo desesperado é cinema de cobra. Só que depois de certo tempo, cada mordida trêmula na bolacha espanta as presas. O prazer se torna irritação, o lazer se torna enfadonho e a comédia vira thriller. “Minha sobrevivência está em jogo graças a esse idiota”, pensa ela.

      A natureza é perspicaz e infalível. Simultaneamente pacífica e ardilosa, ela não pisca, não pesa e não prensa. Ela é democrática e impessoal. Quem pensa são seus filhos mortais. A boniteza do pensamento da Cobra-Cipó está na sua percepção. Fazer muito bem não quer dizer fazer sempre. Ter e usar são verbos distintos. Ela sabe que se revelar pode ser suficiente e que seu veneno é fraco para humanos. O homem está apavorado, exausto e perdido. “Um oi deve bastar”, pensa ela. Quando percebe a proximidade da cobra, o homem trava feito cinto de astronauta. A perna e a cabeça, ferventes pelo calor, se dão por congeladas na velocidade de um foguete. A gota de suor fria e cristalina escorre em câmera lenta pela testa. “Não faça movimentos bruscos”, pensa o homem.

     A natureza não precisa de absolutamente nada. Ela é filha do tempo, e ao mesmo tempo, irmã gêmea dele. Ela é mutável, permanente, perfeita e eterna. Para os que pensam em conviver com ela com qualidade e por bastante tempo, o melhor caminho é conhecê-la, desfrutá-la e, acima de tudo, respeitá-la. A Cobra-Cipó sabe que seu veneno não vencerá o duelo. Entretanto, como se tivesse poderes mágicos, ela consegue atravessar os olhos do homem e visualizar, dentro do cérebro dele, o tamanho do medo. “Essa cobra tem 13 metros”, pensa o homem. “Uau! Mesmo eu tendo só 2 metros e um veneno fraco, essa anta está em choque”, pensa a cobra. O congelamento do homem não ajuda. Ela precisa que ele fuja para poder retornar a sua caça cotidiana de lagartos e insetos. “Acho que esse vai precisar de um abraço”, pensa ela.

       Os gestos e intenções são verdadeiros motores das interações entre os seres. No final das contas, a natureza é um jogo de cartas marcadas e desmarcadas. Um bocado de ases, damas e reis são coisas do cinema geralmente. Muito dessa jogatina está em blefes e nos conjuntos. O que dá sentido para a carta é o jogo que está sendo jogado. Saber, perceber e conhecer podem ser as diferenças decisivas entre bater, ficar por um bate, fazer uma canastra, pegar o morto ou ser o próprio. “Dito e feito”, pensa a cobra ao blefar um beijo roubado em direção ao homem, que descola os pés e dispara como se tivesse patins nos pés e o solo fosse de gelo. Mas não é gelo, é a caatinga.

     O sertão é intrépido e implacável. O vazio, o pensar e o não pensar, concomitantemente, são filhos que o sertão faz. O homem, agora membro do hall da fama do atletismo, dribla sem ver e raciocinar! Ultrapassa uma avalanche de coisas que não conhece. Muitas espécies invisíveis e cactos espinhosos completam a paisagem da cena. Não havia nada atrás dele. A cobra fez da mentira seu golpe, e já estava voltada à sua própria necessidade. Mas é o sertão, e sem pensar uma só vez, o homem se atira de uma rocha enorme que parecia ter sido esculpida pelas mãos de um escultor gigante. O mergulho no céu é refrescante em um primeiro momento. “Escapei tranquilo”, pensa ele. Só que é o sertão. O que músculos podem fazer entre dois céus? O que músculos podem fazer contra 10 metros de profundidade e a correnteza? Por quanto tempo? “É melhor morrer afogado que morrer de sede”, pensa o homem. E a natureza que nunca pensa, em parceria concreta com o medo e o desconhecimento, afoga um homem com sede. E na conversa telepática do céu com o rio, “esse foi fácil, difícil está sendo aquela árvore ali”, pensam os dois azuis.




 

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