O PIANO
O som do piano é a vida pura.
O bom do piano é sua ternura
E com o piano eu fiz tantas juras
Que o tom do soprano se perdeu da cura
Na partitura, garranchos!
E a parte que atura velada, obscura
Se a arte da tintura desbotara,
Samba de verdade dura
Assinaturas e arranjos?
Assassinados!
Samba de verdade dura
Aquele copo de Jobim
Morreu o foco, nasceu o fim
Os panos estão encharcados!
Os danos sentenciados.
E o maniqueísmo do piano
Contempla qualquer desmanche
As teclas de uma revanche
Cromatismos mundanos
Piano estavam as cordas
Piano que se recorda
A sombra é o que entorna
A luz que já não estorna
A música agora morna
Sucumbiria de qualquer forma.
Ombros devorados pela bigorna,
Um dia desistem dos contracantos
Ainda que o peso leve dias
E o pranto queime os anos
Era uma bigorna,
Ainda que fosse um piano.

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