A REDE



 

         O nome do personagem poderia ser Antônio, Alfredo ou Armando. Ou Rafael, Renato ou Ronaldo. O ar parece seco. Ácaro na cortina. A garganta engarrafada e as cordas poluídas. Nada sai! Nada sai! A sujeira escorre, densa e viscosa, por todos os cantos otorrinolaringológicos. Deu a lógica! Ar condicionado ligado para completar o ataque! Como se o Diabo escrevesse o dia, nos últimos passos da trama, o trem desacelera copiosamente. Uma provocação ridícula! O ar parece seco, e o personagem começa a construir pensamentos intrusivos claramente persecutórios. – Será que é comigo? -  ele se pergunta. Nada melhor para enlouquecer do que uma conspiração. O personagem quer saber se Deus o esqueceu ou se, de alguma forma, o maquinista do trem é um adolescente provocando os amigos ou a namorada que estão na viagem “tartaruguística”. O cérebro que inventa palavras não pode controlar o tempo, o trilho, o trem e os entupimentos do pensar. Não é poesia, é sinusite. O ar parece seco para Romildo Antônio.

          Quem diabos é Romildo Antônio? Pouco se sabe sobre sua origem e trajetória. Se Deus o esqueceu, como ele cogita, não se pode afirmar rigorosamente nada sobre os milagres e pecados de Romildo. É impossível saber quantas frutas Romildo deixou cair, e quantas flores Antônio fora capaz de colher do mesmo chão. No final, a vida é inteiramente plantada em uma única superfície. Por dentro ou por fora do oceano, nas cavernas mais profundas ou nos picos mais íngremes e altos, sempre a mesma superfície. A humanidade vive toda no mesmo solo. Os seus olhos e os pés dentro do trem de Romildo Antônio pertencem ao mesmo lugar. Só há um mapa, e nenhum deles parece levar ao coração de Romildo Antônio. A única coisa que parece é que o ar está seco, e que Romildo é um trabalhador de longa data neste solo. O suor, o carrinho de mão, a olheira e a sinusite. Os poucos fios brancos também revelam uma vida de batalhas. Se Romildo é gentil ou patriota não se sabe, mas a saturação de bronze emanada de sua nuca torna a gentileza uma irrelevância. É a nuca de quem trabalha o dia inteiro! Uma nuca tostada feito pão na chapa! A nuca de dez mil sinucas! A nuca que desafia o Sol diariamente.

         Romildo já desceu do trem e da estação, apesar da dificuldade em manusear o carrinho de mão após tantos anos. Não lhe falta técnica ou habilidade. Faltam-lhe os braços e as pernas! Para Gustavo Kuerten, o Guga, fora o quadril. Para Ronaldo, o Fenômeno, fora o joelho. Curiosamente, Ronaldo e Gustavo pararam. Romildo não pôde, Antônio não pode! Ainda que lhe sangre as esquinas dos dedos do pé, e que sua pressão costume ser quinze por dez sem o remédio. Ainda assim, ele não pode.

         Ele dirige pela calçada! Ir à feira ou passear com carrinhos de bebê são realizações, considerando as calçadas das metrópoles deste solo. Mas ele nunca reclama! – Pelo menos eu tenho o carrinho para me ajudar. Antes eu levava tudo no ombro, de ponta a ponta e na areia –  ele diz. Uma venda efetuada para setenta e oito recusadas. Esse é o trabalho de Romildo. Não quem ele é, mas seu labor.

           Muita coisa muda a partir da altura com que se olha para o horizonte. Antônio anda, oferece o produto, continua. Um passo após o outro e uma respiração atrás da outra, com dificuldade. Por trás de seu sorriso na “Abbey Road” real, o cansaço e a secura parecem invadi-lo. O farol fechou, e lá vai ele de novo. Aproxima-se de um carro aparentemente bem caro, e o vidro se fecha. Aproxima-se de outro mais popular e o motorista conversa trivialmente sobre um outro lance da rodada do futebol de domingo, mas não compra nenhuma. O farol abre. Romildo não tem lugar para sentar e o ar parece seco. Aqueles pensamentos de que Deus poderia tê-lo esquecido já não estão mais lá. Ele precisa vender pelo menos mais uma. De qualquer jeito! Muita coisa depende disso! É um pênalti em final de Copa do Mundo. Deus não deve, ou não deveria, se meter entre o batedor e o goleiro. O farol fecha! E lá vai Romildo, domina pelo canto da guia descendo em direção aos corredores formados entre os veículos. Os motociclistas estão colocando os endereços em seus respectivos mapas. Antônio se aproxima de um carro que mais parece uma nave. Começa a intuir que pode ser até um jogador de futebol, dado o modelo e a extravagância que o carro contempla. O vidro se abre e não é nenhum craque ou fenômeno conhecido. A pessoa não é famosa, mas claramente possui muito dinheiro – talvez um empresário de sucesso – Romildo pensa. – Será que é um empresário de jogador – completam os neurônios. Com a pompa típica de muitos que têm muito, no pulso esquerdo um relógio dos mais caros. O jovem braço estendido em repouso para o lado de fora do veículo. Pouco se sabe sobre o jovem. Nada se pode afirmar sobre seus milagres e pecados, ou se Deus estava de olho na hora. Por trás de uma pretensa simpatia, certo mesmo é dizer que o garoto pensa que o relógio combina com a lataria do carro, e que performances masculinas no mundo devam ser essas. Assim que o semáforo abrir, o jovem cuspirá no chão. Mas o farol ainda está fechado. Romildo utiliza-se de suas grandes artimanhas. O sorriso, o tom jocoso, a popular máscara do artista. Todo vendedor é um artista. Ele enreda as palavras como se fossem diamantes, e conduz o menino a achar que é um bom feitor que pode ajudá-lo. Como se pertencessem a solos diferentes, Antônio exalta o jovem e absolutamente todos os seus comentários. O sub-20 por sua vez, com o sorriso de quem tem a certeza de que Deus não o esqueceu; e mais, a convicção de que Deus na verdade o escolheu, responde a Antônio que não compraria. Mas ele se explica, ao dizer que não precisa em nenhuma de suas propriedades. Nem na cidade, nem no campo e nem na praia. O farol abre! Antes de acelerar, o “Enzo” para o trânsito para aconselhar Romildo. – Está muito caro, você tem que vender isso mais barato – afirma o jovem. Ele não engata a primeira marcha pois a nave é automática. Ambos sorriem, o carro se movimenta, e antes que alcance a metade do cruzamento, o jovem cospe no chão.

         O relógio marca quatro horas da tarde. Romildo sente dores insuportáveis por dentro de suas canelas. O farol já está há três quilômetros de distância. Ele andara até um parque para tentar realizar alguma venda – quem sabe alguém sem pressa, ou alguém fazendo exercício – já é o desespero falando. Romildo senta em um banco do parque. A canela é o menor dos seus problemas, ainda que pareçam que o próprio Diabo teria vindo torcê-las. Em uma raridade do cotidiano, a nuca se encontra com a sombra. Traços sutis de ar caminham em direção ao seu rosto. Por um segundo, ele parece esquecer que o ar está seco. Sem chorar, Romildo arquiteta e articula ideias que são só suas. Ninguém sabe. Sem chorar, deixa escapar um estalo de meio sorriso. Lembrara de um rádio que gostava de ouvir na infância. Sem chorar, e sem radar ou rota definida, olha para a direita, e encontra seu mar de redes não vendidas. São muitas cores e muitos tamanhos ali. A vontade mortal de deitar o arranha. O clima muda; e ao olhar o céu, percebe que as nuvens antes escondidas, agora parecem um tecido branco coberto por ameixas e amoras roxas. O ar parece seco. Como há de se esperar na gravidade, uma gota de água maior que o átomo e menor que um prego, cintila no nariz de Romildo Antônio. Sem saber se ri ou agradece, percebe na velocidade de um raio que as redes não podem molhar em hipótese alguma. É hora de desafiar Deus e o Diabo. Os relâmpagos são tubarões gigantescos e velozes. O personagem é um peixe velho com as barbatanas doloridas. Sem remédio e sem rodeios, ele nada como se houvesse amanhã em direção àquele mesmo trem. Por saber exatamente o curso do rio, ele sabe como proteger o ramo, a rua e as redes. Mas afinal, quem diabos é Romildo Antônio?

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