O QUE VOCÊ VÊ? E O QUE VOCÊ ANDA VENDO POR AÍ?


      O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Me desculpa por perguntar, é que onde eu moro vivem três pessoas e três televisões. Opa! Acho que eu não fui totalmente honesto. Lá vivem três pessoas, três televisões, dois celulares e dois computadores portáteis, aqueles que o Brasil de Joelhos e o Brasil Soberano insistem em chamar de notebooks, mas esse assunto seria uma fábrica de mangas compridas, provavelmente produzidas na China. Meu Deus, que confusão literária! Enfim, faltou dizer o que falta onde eu resido. Curiosamente, com essa infinidade de telas, acredite se quiser, não há nenhum quadro pendurado, nada! Nem uma única tela! Nem um pintado pela minha sogra, nem uma cópia de Abapuru, da Vinci, Dali, Monet, Manet! Não há nada pendurado!

      O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Me desculpa por perguntar, é que onde eu moro, na capital paulista existe uma malha ferroviária enorme. Diariamente o labirinto metálico dilacera o espaço para mover o povo e, principalmente, o dinheiro que o povo produz. Entretanto, basta! Falar disso me levaria para uma multinacional de mangas compridíssimas. Voltemos! Ora, a cada passo entre estações, baldeações e vagões, chama-me a atenção o desmensurado caso de amor entre o indivíduo e sua tela. É como se o mundo que nos cerca não existisse. É chocante! As pessoas ficam nesse rala e rola com a tela até quando estão andando de uma escada rolante à outra. E têm de tudo! É “Oremos”, é Wandinha, é música, é jogo de futebol, é Fake News, é gente dançando, é gente comendo, é gente fazendo comida, é gente vendo vídeo de gente seminua, e as vezes é uma mesma gente vendo tudo isso. É um mundo na palma da mão! Quase que como uma dança coreografada de axé dos anos 90, é uma mão na tela e a outra no corrimão, se segurando no balanço do trem e, onde vivo, bem longe do balanço do mar.

         O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Me desculpa por perguntar isso, é que onde eu moro, sempre haverá um jovem socialista com as respostas prontas para essas questões. Desde um tratado discursivo gigante que aponta para a Apple, o Google e o Elon Musk como responsáveis por essa dinâmica, até seu amigo, outro jovem socialista, possivelmente estudante de psicologia, com uma boa dose de resoluções psicanalíticas e deleuzianas para descrever o sufocamento emocional imposto às pessoas pelo modo capitalista que vivemos. Colorir o mundo me parece um pouco mais complexo do que vídeos de inteligência artificial. Todavia, em um mundo em chamas, é sempre um sopro de esperança o frescor primaveril da amizade e do diálogo entre os jovens socialistas. É um quadro mais bonito do que qualquer aplicativo ou algoritmo poderia conceber.

      O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Me desculpa por perguntar isso, é que onde eu moro, uma megalópole repleta de aparelhos e atividades culturais, o tempo todo a gente encontra exposições e atividades para viver por aqui. Já corri o trecho por alguns museus, monumentos e exposições, e como diria Chico César, “De uns tempos pra cá”, do MIS ao Masp, do Chaves à Frida, do CCBB ao Ipiranga, do Kobra ao Monet, um fenômeno cada dia mais célere me deixa voluptuosamente intrigado. Como diria Vital Farias, “Veja Margarida”, não existem mais exposições dos ícones, suas histórias e suas obras! Não existe mais a exposição da Frida! O que existe são as pessoas na exposição da Frida! O que existe é você na exposição da Frida! O quadro só importa se o celular tiver bateria suficiente para fazer o registro do seu rosto e corpo ao lado do quadro! Será que sorrir em fotos ao lado das radiografias de Frida Kahlo é razoável? Embora pareça polêmico ou agressivo este tipo de apontamento, ironicamente este é apenas um texto para você ler na sua respectiva tela, no lugar que quiser, em uma plataforma do Google.

        O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Me desculpa por perguntar isso, é que onde a humanidade escolheu morar e passar suas horas causa certa perplexidade. Afinal, quando foi que a nuvem abaixo de nós se tornou mais importante para nossos corações que a nuvem acima de nós? Quando foi que decidimos abandonar o apreciar da chuva? Quando foi que achamos que o Google Drive seria um caminho para a imortalidade? Será que o mundo está mesmo na palma de nossa mão? Ou será que a gente resolveu entrar de vez no “Querida, encolhi a gente” e estamos todos, integralmente, na palma das telas? O que você vê? E o que você anda vendo por aí? Ou melhor, por onde você vê? E por qual lente você anda vendo o mundo por aí?

      

Comentários

  1. Parabéns pelo texto, fiquei emocionada. Na minha casa tenho telas ( réplicas) e originais de um pintor que ainda não ficou famoso. Parabéns. Pedro Poeta.

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    1. Obrigado pelo carinho de sempre Dona Regina! Valeu pela força! Feliz que tenha gostado! Sobre suas telas, existem multiartistas por aí...

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  2. Sensacional! Que seja uma nova fase de muito trabalho, inspiração e criatividade! Te amo sempre!

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