A VIZINHA PERFEITA: Um filme de encher e rasgar os olhos
Uau, Geeta Gandbhir! Uau Geeta Gandbhir! O que
eu aprendi “andando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o
nome”, e nas quebradas da pauliceia artística e literária, são outras
expressões para as reações de algo fenomenal, intenso e espetacular. Assim
sendo, pow pow pow, Geeta Gandbhir! O que você fez em tempos filtrados por 4 e
8ks, e avatares que enchem os olhos de muitos e os bolsos de poucos, é para a
eternidade. James Cameron é um gigantesco cineasta. Longe de mim criticar
alguém por algo que tecnicamente sei pouco ou quase nada. Até porque vira e
mexe um filme específico do Camarão aluga minha televisão do quarto. Não,
camarão em inglês não é Cameron; é shrimp. Não me peçam para pronunciar. E sim,
é o filme do barco gigantesco. Os filmes do camarão são vistosos e “very
expensive”. Ou seja, gigantescos. Não, isso não o diminui como cineasta; é um
fato. E sim, ele estudou 10 anos para fazer a “Pocahontas” mais cara de todos
os tempos. Para ser justo, o segundo filme da saga azul é muito melhor que o
primeiro, a ponto de levar-me as lágrimas. E esse parágrafo inteiro foi para
dizer-lhes que, se qualquer um dos icônicos diretores de cinema homens tivessem
feito o que fez Geeta Gandbhir, a mídia já teria alçado a obra de Geeta ao
lugar que merece. Documentário não dá dinheiro! Documentário com essa temática
menos ainda! Documentário de uma mulher negra-indiana então, nem se fala! Se o
filme “A Vizinha Perfeita” tivesse nascido no cérebro de Quentin, Nolan ou Burton,
o substantivo feminino genialidade já estaria sendo vociferado.
Meu Deus! Meu Deus! Foi exatamente para
esse canto do meu âmago que a genialidade de Geeta me levou. Muito longe do
preço das câmeras e holofotes da Marvel, a ideia de contar a história através das
gravações dos uniformes policiais é brilhante. Existem contextos com essa linha
que são estapafúrdios, vide os programas veiculados no Discovery Investigation.
E sim, a mesma TV dos inquilinos Jack e Rose, às vezes recebe um pessoal um
tanto quanto suspeito, diabólico e louco. E não, a intenção não é menosprezar
condições de saúde psíquica de ninguém ao usar o termo “louco”. Para honrar o
mês de outubro e minha geração, o gênero do terror também cultua um quadro de
câmera parecido, mas preciso ser sincero: Atividade Paranormal e Bruxa de Blair
são filmes ridículos. Não cabem na mesma frase, quem dirá em uma
pretensiosíssima análise cinematográfica. O espaço para poesia desse texto
inexiste. O filme atravessou meu peito de forma dilacerante. A montagem e a
narrativa conseguem produzir uma imersão absurda. A conexão e a proximidade do
que o filme conta com o cotidiano são arrebatadoras. Para os preocupados com o
mundo que vivem, porque nem todos os pais estão, “nos deram espelhos, e vimos
um mundo doente”. A realidade é crua, cruel e catastrófica. Há muito tempo não
me desesperava culturalmente. O que Geeta fez é tão causticamente inesquecível,
que acho muito improvável alguém rever o filme. O tamanho e o preço da
genialidade têm dessas coisas, e este documentário foi alçado para uma posição
eterna no “ranking que só eu me importo”. Você pode estranhar como esse texto
está escrito, mas quando as lágrimas chegam ao fim, resta aquilo de que a
barriga está cheia: o vômito.
DAQUI EM DIANTE, CONTÉM
SPOILER
O documentário “A Vizinha Perfeita” é um
esculacho reflexivo sobre racismo, papel do Estado, saúde mental, armamentismo,
violência e onde tudo isso mora, nosso cotidiano e nossos corações. A
civilidade e a falta dela, e o atual modus operandi de enfraquecimento dos
valores que compõem os Direitos Humanos perpassam o filme inteiro. É curioso
como as sociedades violentas transformam o que é um alicerce civilizatório, e a
parte mais bela de nossa humanidade em um conceito passível de debate, crítica
e polêmica. Isso precisa mudar e o filme, drasticamente real, mostra isso.
Cheios de certeza, os detratores dos Direitos Humanos não percebem o quanto
suas cegueiras coletivas induzem uma cultura de tensionamento social constante.
O conceito de “todos contra todos” de Hobbes, é o que sobra da ausência do
pacto civilizatório, não uma ferramenta cabível, aceitável e razoável para
dentro do Estado.
Normalmente, os detratores dos Direitos
Humanos costumam responsabilizar o Estado por quase tudo de ruim que existe no
cotidiano. Acusam o Estado de ser inchado, intervencionista e um inibidor da
prosperidade individual. O filme contradiz esses conceitos com nitidez. A
ausência do Estado é uma das causas primárias do desfecho trágico. Centro de
Atenção Psicossocial, Centro de Referência de Assistência Social, Conselho
Tutelar, Defensoria Pública, Conciliadores de Justiça, Conselhos de Bairros,
Subprefeituras? Nada disso estava presente na Flórida, onde a história
aconteceu. Lá não tem SUS. As similaridades com qualquer rua ou condomínio
brasileiro no filme são gritantes, por isso é importante salientar que reduzir
o crime a mera motivação racial, não encontra aderência na realidade, porque a
vizinha era claramente perturbada. O racismo é uma causalidade nessa história,
mas basta entrar em qualquer grupo de WhatsApp condominial que você encontrará
posições lunáticas e explosivas entre vizinhos de mesma etnia. Naquela rua do
filme, todas as pessoas precisavam de maior suporte do Estado, ainda que por
razões diferentes. O Estado não toma nenhuma medida para evitar o escalamento
da violência de uma senhora racista, branca, solitária e perturbada.
Os aspectos e dilemas raciais
presentes na trama possuem papel central na perseguição realizada pela vizinha.
Para muitos racistas como ela, há um ressentimento profundo em coexistir nos
mesmos metros quadrados com pessoas negras, ainda que sejam crianças. O
privilégio branco, na cabeça da vizinha e de muitos por lá e por aqui, é o que
dá o direto à perseguição. Essa falsa, abjeta e nojenta sensação de
superioridade, na cabeça dessas pessoas, cria a legitimidade de não apenas
perseguir, mas reclamar, ofender, agredir, violentar, e por fim, assassinar.
Uma volta em bairros como a Lapa de Baixo, a Freguesia do Ó e Pirituba lhe
revelarão isso. Veja o filme, veja sua rua, veja seu prédio e veja sua
quebrada. O próprio Bolsonarismo encontrou força se alimentando desse
ressentimento dos brancos pobres. Até mesmo as construções de rivalidades
futebolísticas em São Paulo por exemplo, tiveram parte de sua história
entrelaçada por conflitos raciais nos bairros periféricos, mas isso é assunto
para outro dia.
Urgente, urgente mesmo, e assunto para
ontem é o armamentismo. O documentário desmonta de A à A todas as teses que
defendem uma cultura de porte de arma de fogo por civis. A tristeza consistente
e viva do desfecho, a partir da imersão real nos momentos de lazer das
crianças, fazem de “A Vizinha Perfeita” uma ode ao desarmamento. Uma história
tão trágica, que poderia acontecer ao lado da sua porta, é um chamado demolidor
para a defesa do desarmamento e do diálogo. A narrativa é tão poderosa, que a
frase “quatro crianças ficaram órfãs”, entra pelos nossos olhos com a força de
um canhão. As lágrimas das vítimas vivas enterram qualquer sustentação
filosófica e conceitual do armamentismo. Armas de fogo não protegem ninguém. Se
protegessem, teriam outro nome, significado e etimologia.
O que resta dizer quando uma mãe morre
defendendo seus filhos violentados? A impunidade branca condenou a assassina
por homicídio culposo. O “juridiquês” é tão branco quanto sua origem romana.
Culposo? Isso é Justiça? O que sobra dizer aos detratores dos Direitos Humanos?
Imbecis como são, vão fazer duplos twists carpados para justificar sua própria
covardia. Atirar é mais fácil do que mudar de ideia. Até quando daremos vazão
completa às nossas violências, desequilíbrios emocionais e machezas? A banalização
da vida está aí! Nua, horrenda e gigantesca! No trânsito, ar condicionado,
cachaça, lugar na fila, empurra-empurra no trem, futebol. Tudo é motivo e tudo
é exemplo. Diante de tanto ódio, o que mais AJ Owens poderia fazer para
defender seus filhos? Ela dava duplos twists carpados diários para educar e
criar as crianças. Ela era o que todo filho espera de uma mãe; consistência,
amor e defesa incondicionais. O salto Duplo Twist Carpado fora criado pela
brasileiríssima e negra Daiane dos Santos. Portanto, Estado, Justiça, Polícia e
detratores dos Direitos Humanos deveriam lavar a boca antes de usar piruetas
para explicar o horror. Isso jamais deveria ter acontecido! Defender os
Direitos Humanos colabora para que nunca volte a ocorrer casos como esse! O
Estado precisa estar presente! O racismo precisa acabar! O armamentismo é um
câncer! Quatro crianças ficaram órfãs! Uma mãe foi assassinada por ser mãe!
Entretanto, é mais fácil defender o direito do tiro do que os Direitos Humanos;
o direito à propriedade do que os Direitos Humanos, é mais fácil disparar do
que dissolver ideias.

Comentários
Postar um comentário