EU ESTOU AQUI!
Jesus Cristo! Eu estou aqui! A música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos deve ser uma das mais famosas do século XX nesse Brasil de meu Deus. A canção, icônica para qualquer pessoa nascida no milênio passado, aproxima-se da terceira idade com seus mais de 50 anos, e seu sucesso é um símbolo da profundidade e capilaridade do cristianismo no país. Em tempos recheados por “Apocalipse nos Trópicos”, a música Gospel nas paradas de sucesso, Templos protestantes faraônicos e conglomerados de mídia, convém dizer que não há novidade. “A Novidade” é uma das múltiplas obras-primas de Gilberto Gil, este sim, o homem que deveria ter recebido o título de Rei. Feita essa afirmação, não há novidade nessa proposição teocrática dos pentecostais. Sejamos justos, a aliança formada entre o Rei, a Rainha e a Igreja Católica Apostólica Romana existe desde a primeira ignição do calhambeque, cujo barulho do motor produz a onomatopeia “plim plim”. Os que conheceram o mundo pré streaming e TV à cabo sabem disso. A história de Jesus Cristo a cada sexta-feira santa à tarde, o também artista Padre Marcelo Rossi e o estereótipo do Rei. Embora o Rei e a Rainha sejam mais antigos do que o Padre, ali foram ungidos modelos comportamentais para a sociedade. Afinal, de qual padre estamos falando? “Como um grande homem deve ser” é uma música do desenho Tarzan, interpretada em português pelo excelente Ed Motta, mesmo que a loucura o tenha convencido ultimamente. Um grande homem deve ser como o Rei! Um grande homem não deve ser como Gil! O mais assustador é que o segundo, autor da música “A Paz”, sempre transmitiu uma pacificação personificada maior que a do primeiro. Estética, Marketing, Dinheiro, Religião e Racismo. Ir longe para explicitar que o tempo de hoje é terrível há mais tempo do que se pensava. Muito além de um símbolo, um sintoma. Uma sinfonia de sintomas!
Jesus Cristo! Eu Estou Aqui! E não
somos franceses. Não queiramos decapitar o Rei. Roberto Carlos é um
incomparável artista. Fez muito pela música brasileira e merece cada gota do
vinho que bebe. As exceções católicas começam pelo vinho e terminam na proteção
irrestrita dos membros da Igreja. Júlio Lancelotti nunca celebrou uma missa na
Rainha! E também não queiramos decapitar a rainha, mesmo que ela não reconheça
o dilúvio de “merda” que ela produziu nesta terra onde canta o sabiá. Até
porque, a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, é do século XIX e não se deve
ir tão longe. Aliás, as influências teocráticas católicas se faziam bem
presentes em 1843. Senhoras e senhores, há um crucifixo enorme no plenário da
Câmara Municipal de São Paulo! Para deixar o leitor elucidado, que fique
cristalino que o crucifixo está pendurado em 2025, não em 1843. Logo, a Revolução
não deve decapitar o Rei e a Rainha.
De qual Padre estamos falando? A
Rainha já foi lançada à plebe. Não para morrer, mas para aprender a viver como
o resto de nós. O Rei está mais próximo da Inglaterra do que nunca. E o padre?
De qual padre estamos falando? Se fosse possível, poderíamos pedir uma força,
quer dizer, uma resposta quem sabe, daquele que deve ser sempre nomeado, ou
melhor; louvado. Menção desonrosa para a escritora J.K Rowling, contumaz
transfóbica. Quantas faces a Igreja tem? Quantos lados a Igreja tem? Quantas
faces nós temos? Quanto de nossas vergonhas enterramos? Para a Revolução, mais
importante do que o crucifixo que cada um carrega, é o crucifixo da capa do
disco “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais Mc’s. Um dos maiores álbuns do
século XX e um dos mais necessários para o século XXI. Os 4 cavaleiros do Rap
nunca se curvaram à Rainha, e fizeram praticamente tudo longe dos plenários e
templários. “Nada Como um Dia Após o Outro Dia” é outro álbum fantástico do
quarteto, já pertencente ao século XXI. O álbum do século XXI tem a canção
“Jesus Chorou”; o do século XX tem a música “Diário de um Detento”; duas
músicas para a eternidade.
Jesus Cristo! Eu estou aqui! Isso
Jesus já sabe. Nada é mais eterno do que Jesus. Ele sabe de tudo. Difícil mesmo
é saber o que ele acha em 2025 ou o que ele achou dos últimos 2025 anos. Não
sei se a música, criação das mais divinas, é capaz de responder o que Jesus
acha. O que Jesus acha do massacre do Carandiru completar sua própria idade? O
que Jesus acha de 33 anos depois do massacre, o governador de São Paulo ser
Tarcísio Gomes de Freitas e o secretário de extermínio público ser Guilherme
Derrite? Melodias à parte, qual letra Jesus daria para os ouvintes mensais
votantes? Para os que creem, Jesus já sabe onde estamos. Quando ele nos
encontrar, certamente perguntará onde é que nós estávamos.

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