PARA NÃO TE MATAR DE TÉDIO (13/10/1977 - 15/10/2025)

      Como era de se esperar, o tédio e o Corinthians são palavras antagônicas. Muito mais que o sol e a lua, que costumam acenar um para o outro por alguns instantes, o Coringão e o tédio jamais interagem. Um grão tem o diâmetro do deserto, e uma gota o tamanho do Rio São Francisco. Tudo é demais! Esse é o Corinthians! A expressão mais transcendente da Terra. Um movimento de ato e potência. Tempo, política, religião, filosofia, história, posicionamento. O Corinthianismo é o único a saber que o futebol é uma ferramenta e não um fim. Para não te matar de tédio, melhor irmos aos fatos do futebol e fora dele.

     Em 13 de Outubro de 2025, completaram-se 48 anos da maior conquista da história do Coringão. Só que não foi uma conquista, uma taça, ou um mero “sair da fila”! O que aconteceu em 1977 foi a libertação emocional de uma população. Um dilúvio de paz. A afirmação de que a vida, por mais difícil que possa ser, é uma linda luta a ser contemplada, vivida. Mais do que a justificativa do viver, a elevação do existir. A constatação do existir coletivamente. Nada é mais Corinthians do que existir coletivamente! Para não te matar de tédio, melhor irmos aos fatos do futebol e fora dele.

      Em 15 de Outubro de 2025, o Ministério Público denunciou Andrés Sanchez, ex-presidente do Timão, pelos crimes de apropriação indébita, lavagem de dinheiro e falsidade de documento tributário. A profunda crise institucional, política, financeira e moral que o clube vive produziu mais um episódio. O dirigente em questão parece ser o último de sua espécie. Embora na burguesia da Zona Sul um tal de Casares pareça querer o posto, Andrés é formado na escola da Oligarquia da Bola. Essa turma venceu, venceu, viciou-se em poder e vaidade; destruíram seus respectivos clubes. Foram muitas autocracias e os exemplos são recheados. Eurico no Vasco é a personificação disto. No dito Trio de Ferro paulista, a história do Time do Povo deve reconhecer que Vicente Matheus foi um outro símbolo dessa estrutura. Agradecê-lo e romantizá-lo não o retira desta lista. Folclore é bom para rir e lembrar, mas não para viver, agir e fazer; não à toa, realidade e realizar possuem o mesmo prefixo. Quanto aos rivais, Juvenal Juvêncio na burguesia da Zona Sul e Mustafá Contursi na burguesia eurocêntrica da Zona Oeste, também integram essa caricatura autocrata do dirigente no futebol brasileiro. Já o rival da rodovia Anchieta tem seu exemplo mais vivo do que nunca; Marcelo Teixeira é o atual presidente do Ney F.C, e já o era no último título brasileiro do clube em 2004. Para não te matar de tédio, e aproveitando o gancho do adversário de ontem, vamos aos fatos do futebol e fora dele.

       O Coringão fez uma partida horrorosa. Para qualquer time que jogue fora de casa, um clássico com torcida única, e  sem o seu espetacular goleiro titular, sofrer um gol nos primeiros 10 minutos constatam, em primeiro lugar, a falta de concentração. Ou seja, um absurdo. O Corinthians esteve desconectado da partida o tempo inteiro. O rival competiu por cada palmo do campo, e o Coringão se esqueceu da própria identidade. Ela não esteve em campo. O time da baixada nutre um ódio do tamanho do mar por nós, e os jogadores do Todo Poderoso não saberem disso é inaceitável. Atletas precisam conhecer o lugar e a história de onde jogam. Isso é uma vergonha! Em tempos atuais, o dinheiro afoga tanto os jogadores, que 1977 está mais longe do que a lua. Eles não conseguem enxergar e também não o querem. Cabe à instituição essa fixação de conhecimento para seus funcionários. Contudo, na atual crise é impossível. Curiosamente 15 de Outubro, data da partida, também é dia dos professores; e o futebol brasileiro faz questão de descartar o elemento do intelecto na construção de seus atletas. Jogar bola não é apenas correr, é preciso pensar. Se os jogadores do Coringão lessem um pouco mais e conhecessem a história da Fiel Torcida e do clássico contra as viúvas do Pelé, seguramente correriam mais e melhor. Para não te matar de tédio, melhor irmos aos fatos do futebol e fora dele.

        A última coisa a dizer e a única coisa boa sobre a partida na minúscula Vila Belmiro, fora a campanha estampada na camisa dos jogadores de preto, denunciando os alarmantes números sobre o feminicídio. Mais uma vez, o Coringão posiciona-se sobre existir coletivamente. Sempre cabe e caberá ao Corinthians os dedos na ferida. A coragem é um atributo grande e reluzente para esta população. Não há fingimento; e, embora haja uma “Fiel Quartel” para entoar aos berros que isso é lacração, e debochar afirmando que isso é entediante, quem é refém do tédio corre sem pensar; e não pensar mata.

       Em 15 de Outubro de 2025, uma parte cada vez mais importante do Coringão mostrou que compreende perfeitamente o que houve em 13 de Outubro de 1977. Quem melhor entenderia senão as mulheres desta população? O Time do Povo e de Todas está em mais uma final de Libertadores. De uma forma nitidamente alvinegra, a partida contra a Ferroviária foi árdua e difícil. A goleira da equipe de Araraquara “fechou o gol” durante o tempo normal. Entretanto, na maior parte do jogo o Corinthians tinha o controle e vencia por 1 a 0. Quando a partida se aproximava do fim, o cansaço das brabas era notório. Correram muito no primeiro tempo fazendo marcação alta e pressão na portadora da bola. O dramático empate do time de camisa vinho levou a decisão para os pênaltis. Com cada time convertendo 4 em 5 cobranças, a disputa fora para as batidas alternadas; e a goleira Nicole brilhou. O Corinthians vai à final contra o Deportivo Cali, da Colômbia; mais uma vez existe coletivamente. Costumo dizer que a história está em movimento, e a noite de ontem foi mais um passo rumo a consagração dessas mulheres incríveis. Marta se consolidou como rainha, atuou por um período no time da Rodovia dos Imigrantes e lotou o velho Pacaembu. A história contará isso. Contudo, é o Coringão e sua população que serão os maiores responsáveis pela popularização do futebol feminino no país. São anos de trabalho, amor, dedicação; é uma hegemonia esportiva das mais brilhantes. Vai se aproximando da seleção brasileira masculina de vôlei na década de 2000, Rio e Osasco no vôlei feminino, Chicago Bulls dos anos 90, Federer e Serena Williams. Gabi Zanotti, Vic Albuquerque e Tamires estão cada dia mais perto de Di Stéfano, Puskas e Gento; e para não te matar de tédio, é melhor você admitir que o Real Madrid é o Corinthians do futebol masculino.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O QUE VOCÊ VÊ? E O QUE VOCÊ ANDA VENDO POR AÍ?

PESSOA CANHOTEIRA QUE VAI POR AÍ...

TANGO DO SALDO DEVEDOR