PRÓXIMA PARADA, LONDRES
O Coringão jogará o Mundial de Clubes Feminino! Isso é mais um passo rumo à consolidação do Todo Poderoso como de fato, o time do povo. É uma revolução! A TV Globo, principal emissora do país, anunciou que o futebol feminino terá um espaço fixo na programação da grade semanal. Como é de se esperar, quando o capitalismo percebe o que pode ser rentável, ele se apresenta travestido de filantropia e apoiador da igualdade. O fato é que o Coringão, através das Brabas, coloca sua grandeza nesse patamar que transcende a prática esportiva! O que as Brabas e a torcida fizeram e fazem é uma conquista política e social. Ver o Coringão ser o motor da história política das mulheres no futebol, produz uma famigerada dor de cotovelo nos torcedores progressistas rivais. Muitos deles não aceitam que fatos históricos levaram a isso! Para qualquer alvinegro com entendimentos básicos sobre a história do clube, era óbvio que o Corinthians seria o time a realizar essa façanha. Jogar a “Copa das Campeãs” em Londres será algo histórico para o futebol feminino latino-americano. O torneio que envolve uma semifinal contra o Gotham, time nova-iorquino onde joga nossa eterna Braba Gabi Portilho, será um desafio e tanto. É sabida a força do futebol feminino nos EUA. Uma possível final contra o Arsenal é um sonho em que, os mais pessimistas torcedores, acreditam piamente. Cegos são os que não enaltecem a modalidade no SCCP e negam os movimentos políticos que envolvem os clubes e suas respectivas torcidas.
Diante do exaspero machista e do discurso preconceituoso que transpira nos times de futebol amador, é comum escutar atletas questionarem a qualidade do jogo e as frases de sempre – “O jogo é muito lento”, “Olha o nível técnico”, “As goleiras são péssimas” e “Não é a mesma coisa”. – Ora, se esses motivos fossem verdadeiros, e fossem a factual causa desses homens não assistirem e apoiarem a modalidade, por que então eles se reúnem semanalmente para praticar e assistir a si mesmos? Um jogo com nível técnico pior, goleiros piores, lances lentos e bisonhos? A resposta é tão simples quanto é para Duda Sampaio jogar. Cabeça erguida, passes, técnica e precisão. Não é por causa disso que parte dos homens não se interessa. Se assim fosse, o futebol não seria o que é; pois, em seu nascedouro amador, vocês acham que os atributos técnicos, táticos e físicos de hoje estavam presentes nas décadas de 1900, 1910, 1920? É só misoginia, tão velha quanto a humanidade; o Coringão, fundado em 1910, nasceu com uma ideologia voltada à quebra de paradigmas sociais e enfrentamento das contradições. Era límpido que nós teríamos essa responsabilidade. Essa é a nossa trajetória como população, e o Mundial Feminino é mais um capítulo do Coringão mobilizado.
O futebol amador é maravilhoso. No último final de semana, um atleta entusiasta do futebol feminino fez o seguinte questionamento: “Como o Corinthians sem dinheiro, consegue ser tão dominante?” A resposta é mais parecida com o futebol de Yuri Alberto; ou seja, complexa. Capaz de lances lindos e horríveis, às vezes na mesma partida, a resposta envolve a qualidade alvinegra e a escrota, não tem outra palavra, disposição da classe dirigente dos outros clubes. Como já foi dito, o Coringão e sua torcida apoiam o esporte. Há um plano, uma estrutura, um reconhecimento, uma categoria de base e atualmente, rentabilidade. O futebol feminino do SCCP se sustenta. Onde mais nesta terra, da árvore que parece coqueiro, as mulheres conseguem jogar para 40.000 pessoas? O que ocorre são decisões políticas, econômicas e institucionais que combatem o futebol feminino, não de forma clara e honesta, mas simbolicamente. Veja, a pergunta ideal seria – Por que a Lazio da Pompeia e o Maior do Rio não investem significativamente para quebrar e hegemonia do Coringão? - Porque suas torcidas possuem um perfil claramente mais misógino. Isso quer dizer que não há misoginia no Corinthians? Claro que há! Mas o ponto aqui é uma correlação de consonância entre torcidas e dirigentes. O Maior do Rio acaba de anunciar que reduzirá investimento no futebol feminino. O ex-presidente Landim fora cotado para presidir a Petrobrás durante o desgoverno Bolsonaro. O clube discutiu na Justiça valores pedidos pelas famílias das vítimas da tragédia do Ninho do Urubu. Isso é nojento para um clube que arrecada tanto. A torcida não se importa! Não há construção de mistura entre política e esporte. O Maior do Rio se diz popular, mas não quer defender sua própria população, vide o preço dos ingressos. Quanto ao eurocêntrico das Perdizes, a história fala por si só. A torcida não se interessa pela modalidade por conta de como sua identidade de torcida fora constituída. A presidente mulher que ocupa a cadeira é uma bolsonarista ferrenha. Finais das categorias de base masculina, que nem fazem parte do futebol profissional, levam mais público ao estádio do que as decisões disputadas pelo time feminino. As organizadas não se importam com futebol feminino, política ou igualdade. Acham que futebol e política não se misturam. Exaltam suas origens eurocêntricas até hoje, mas nunca se desculparam pelo tempo que demoraram para aceitar jogadores negros. Os progressistas verdes, se tornaram negacionistas da história do próprio clube, e não ajudarão o desenvolvimento do futebol feminino se continuarem fingindo que as coisas não estão conectadas. Ideologia é uma base dos arquétipos que moldam as culturas dos clubes. O time da Zona Oeste possui inclinações políticas à direita. É um fato! E sua presidente apropria-se da luta de milhares de mulheres para ganhar dinheiro. Ela não investe e a torcida não pressiona para que ela invista. Por que o jornalismo esportivo, masculino e feminino, não falam sobre isso? Por que a TV GLOBO não a pressiona nesse sentido? Por que o UOL, com seu quadro de jornalistas progressistas, nunca discute essa questão? A resposta ultrapassa a crônica fiel. O que é absoluto, é que Leila Pereira, entre um déficit e uma mulher, sempre salvará o déficit.
O futebol feminino é uma revolução por si só. Ser futebol e ser feminino é uma subversão esportiva na cultura latino-americana. Para nós, o orgulho de ver o Coringão mudar o mundo pelas mulheres futebolistas é uma mágica endereçada ao infinito. Aos que pararam no tempo enquanto a Terra gira, resta a condolência. O Coringão feminino é um cometa que colidiu com a Terra do futebol brasileiro. Há muito mais pela frente. Iremos ao mundial com a imprensa fingindo que se importa e os rivais não sendo cobrados. Mas é como se diz no movimento anarquista internacionalista: Paz entre nós, guerra aos senhores! Ou a adaptação popular: Paz entre nós, Guerra entre eles! O Corinthians é para sempre, e suas mulheres também. Não tem volta. Próxima parada, Londres.

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