SOLITUDE
Dizem que nascemos e morremos sozinhos, e passamos a vida com as pessoas. Mas e aquele 1/3 de sono tranquilo? Não estamos sozinhos? A sabedoria descende do erro. Ela é neta dele. Por ironia do destino, também conhecida como desfaçatez do tempo, quando ela nos alcança, somos nós que já estamos com idade para sermos avós. De todo modo, um sábio, amoroso e errático disse certa vez que havia dormido por volta de 20 anos. A implacável e inoxidável matemática não falha. Você passou 1/3 da sua vida dormindo solitariamente. Ainda que o capitalismo arredonde os números sempre para menos, e que a ciência, conhecida também como saúde, pesquise na velocidade da luz os efeitos, possibilidades, caminhos e impactos de um sono A para um sono Z, dormir é uma solidão com S maiúsculo. Bem-aventurado àquele que adormece como Lewis Hamilton dirige. Para os que carregam lanças, escudos, espadas e catapultas nos cerebelos, as noites fedem a solidão. Minutos tortuosos e horas torturantes. A pele inventa coceiras e os lençóis são feitos de cactos. O existencialismo já havia nos ensinado que estávamos condenados a sermos nós mesmos, mas saber e falar diferem nitidamente de viver e dormir. Seja no céu celeste ou marinho, o pensamento, refém e sequestrador da nossa vida, têm o cheiro da solidão.
Só! Deve ser uma das menores palavras infinitas já inventadas. O primeiro solitário articulou esse pensamento só. A dúvida é saber se foi por sofrimento ou necessidade. O redor era um labirinto ou um show de réveillon na Avenida Paulista? Só! Era medo e desespero, ou medo e desejo? A solidão que adoece é a mesma que cura. Conviver e convidar a solidão para banquetes prolongados soa tarefa para sábios e ladrões. O primeiro fará isso didaticamente. Não foi natural. Foi preciso aprender, além da necessidade de se manter no personagem Alvo Dumbledore. O segundo rouba! Assiste filmes, maratona seriados, joga videogame, lê livros, assiste televisão e inventa compromissos que não existem. A imaginação é um show! Sendo uma sólida aliada dos furtivos, e infalível coirmã da solidão, coloca os sábios e as crianças na mesma prateleira. A paz também se veste de solidão se você souber procurar no guarda-roupa.

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