O PROJECIONISTA

 

       Uma pacifista premiada aplaudindo uma série de violências. É isso mesmo que você ouviu. A distopia atingiu níveis hemorrágicos para os que pensam e a verborragia realmente não tem fronteiras. O mundo que pensávamos conhecer já não existe. Os mercadores de sonhos cosmopolitas, multiculturais, multilaterais e pacíficos estão à beira da morte. De tanto comercializar sonhos mentirosos e escolher seus momentos de sono, a Bela Adormecida foi embalada para sempre. Ela dorme nas profundezas de um passado que jamais foi presente, e quem dirá futuro. As saídas de emergência foram lacradas e discursar, pedir e gritar não adiantam. O terror assumiu o controle da sala, e a humanidade vê-se torturada, porque enxerga todas as portas, mas quando se aproxima de alguma, a serra elétrica lhe amputa os braços. Quanto às pernas, estas ficam intactas para que você possa voltar ao seu devido lugar, pois o terror nunca carrega, ele é carregado. Se você comprou o ingresso ou compraram para você é irrelevante, e sua asfixia independe do sono da Bela. Ela dormirá para sempre ou será que ela dormira desde sempre? “Dormir para sempre” é um eufemismo literário comum para “desexplicar” a morte para as crianças. Sobre crianças mortas não há muito o que fazer, até porque ela dorme exatamente sobre crianças mortas, ou melhor, crianças majoritariamente não brancas mortas. O projecionista já sabe que os dramas hollywoodianos e europeus sobre os anos de 1939 a 1945 perderam aderência e impacto social. Quanto mais longe de Roma, mais prazerosa a violência extrema do gladiador é, e o projecionista também sabe disso. Os que estão respirando enfrentam onerosos truques mentais e físicos e a história nunca esteve tão perdida nas nuvens como agora. Os amputados choram e o projecionista ri. Com suas mangas de fora e conhecendo o tesão da humanidade por apocalipses de diferentes montas, ele goza com as orações feitas ao redor da Bela Adormecida. Alguns rezam pelo clima, outros meditam pela paz, e o projecionista explode em risos. Ela dormirá para sempre ou dormira desde sempre? Ela está morta ou nasceu morta? Ela é um aborto? Para o projecionista tanto faz! Ele foi parte da concepção da Bela, por isso acha que lhe é de direito cortar à garganta dela ou deixá-la dormindo eternamente. O dono da sala é o dono do filme e quase sempre será uma comédia. O drama é um problema dos amputados e não do projecionista. Muitos amputados amputam amputados em nome do projecionista. Está confuso? A crítica não pode mastigar o filme inteiro para você. De uma vez por todas, entenda que o projecionista esteve, está e estará à espreita de todas as sessões, ponto e pronto; a Bela só esteve acordada quando foi conveniente para ele.
    Conforme os amputados entendem o quão ardiloso e dramático o thriller é, menos sentido faz depositar esperanças na princesa da Disney. Devemos colocar a esperança no próprio projecionista? Ou que tal projecionistas? Quem sabe então projecionistas com outros alfabetos? O projecionista possui idioma? No! No! No! A predileção cinematográfica pelo inglês é mais uma prova de que falar este idioma é uma valência, mas está longe de ser prova de inteligência. O projecionista induziu em sua narrativa um dispositivo para que os amputados queiram se tornar ingleses, ou novos ingleses, porque aí o dito “para inglês ver” faria mais sentido. Com o aniquilamento da bela adormecida se aproximando, existem nuances que nos revelam brutalidades sutis. Um médico brasileiro fala inglês de forma excepcional. Ele está mais do que pronto para imigrar ou atender um inglês ou novo inglês. Daí, quando um compatriota deficiente auditivo adentra seu consultório, ele não faz a menor ideia de como atendê-lo. Sem problemas! O projecionista já se encarregou de mostrar ao médico que o erro não é dele. A dose do projecionista pode aplacar qualquer reflexão, vergonha ou senso crítico, e o paciente é só mais uma impaciência; é só um amputado com uma dificuldade a mais. Se a Bela Adormecida está sendo velada, sepultada ou próxima da missa de sétimo dia é mais uma informação inútil do filme. Boa parte dos amputados encontrarão esperança em suas respectivas fés, e o projecionista teimará em defender Israel, possivelmente embalsamando a bela adormecida e, se necessário, ressuscitando-a para que ela defenda o Deus de Israel de forma exclusivíssima. De todas as palavras conhecidas pelos deuses e amputados, nenhuma está tão distante quanto a esperança. Por mais que a poesia tente e requente, ela já não pode ser encontrada. A última vez que procurei a esperança em um dia de paz com minha criança, o balde da pipoca custava 80 reais. Finais felizes são para crianças. Perdão, houve um engano. Quer dizer, crianças brancas acima da linha do Equador. Perdão, houve um engano. Quer dizer, crianças brancas bem, bem, bem, muito, muito, muito acima da linha do Equador.

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