PEDIRAM-ME VERSOS ÚNICOS

 

Pediram-me versos únicos

Cuja inspiração haveria de ser trágica

Recorri à Universidade pública

E descobri que meus dentes lúdicos

São lindos e homicidas,

Pois mastigam milhões de vidas

Ao rir de um verso pútrido

Em linhas universais

O texto de um mundo cínico

Tritura e arrota paz

Costura no tempo físico

As leis que evaporam

Enquanto os reis deságuam

Todo e qualquer líquido

Se lambuzam, não lembram, não limpam

Em Terra de pólvora

O mês sempre é rígido

Senhores feudais e horrores do fígado

Se acham leais e legais,

Se veem leões de lindo rugido

Em Terra de peçonhento

Os loucos letais serão aplaudidos

Os amigos emudecem, e no máximo trazem

Verbetes ao violento

E o tema da Unicamp

Cai rumo ao esquecimento

O lema do Unitrump

É sumo há muitos ventos

Em Terra de víbora

Um mole diz sem rodeio

Em Terra de víbora

“Enterra sua filha ali,

Aqui já está cheio”.

Em Terra de sádico

Ratos roem roupas, rios, recheios

Sem frase, sem frade, sem freira, sem freio

a eles, Roma, a elas, arreio

Em Terra de sádico

O silêncio goteja

O herói esquarteja

As reais mortas-vivas

Nessa comitiva, 

Que rouba o plácido.

Em Terra de másculo 

Tangerina barrada no meio

Pequenina tirada do recreio

Às pressas, sem preces, só preços

Em Terra de másculo

“Enterra sua mãe aqui,

Ali já está cheio”.

Pediram-me versos únicos

Em um universo de mortes

A milhares, há milhares, as mulheres.



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