Ó, MEU CARO FOLIÃO.
SÃO PAULO, 13 DE FEVEREIRO DE
2026.
Ó, meu caro folião! Sei que ao longo dos
anos recrudesci minhas visões. Talvez por conta da idade, da saudade ou da
saúde. Não sei ao certo. Mas me lembro de reclamar consistentemente desse
trânsito sem fim. São Paulo é um inferno no carnaval! Se fosse taxista,
provavelmente já teria sido acometida por um derrame se tivesse que dirigir na
sexta-feira véspera de carnaval. Aquele sambódromo, aquele congestionamento,
aquela chuva, aquelas brigas e aqueles sorrisos. Meu deus, que ódio! E o poder
público? A mesma máfia de sempre. Dinheiro para as escolas de samba, dinheiro
para blocos, baderna, ruas interditadas, indústria da multa, e eu ainda não
posso falar nada sobre os comportamentos de homens e mulheres nas ruas. Que
vergonha! Todo dia eu orava e rezava para que Deus elucidasse as almas destas
mulheres folionas perdidas. Pedia para que acabasse com essa ideologia de
gênero maldita e essa indecência que o carnaval produzia. Não posso negar quem
eu era e, de vez em quando, quem ainda sou, meu folião. Mas nos últimos anos,
conforme trocávamos cartas, fui aprendendo sobre seu tempo. Por isso, oro para
que mulheres jovens pelo menos usem preservativos, porque ninguém merece uma
gravidez indesejada ou uma DST. Também rezo muito para que você se comporte
adequadamente pelas ruas durante esses dias e todos os outros. Preciso te
agradecer, meu folião! Cada indicação de leitura, sugestão de filme e conversa
foi muito importante para que eu ressignificasse meus entendimentos sobre os
confetes e serpentinas. Uma coisa que sempre nos uniu foi o amor; e nada é mais
forte e precioso do que isso, meu folião. O amor sobrepõe-se ao saber. O amor
foi a causa da minha busca pelo saber, porque de nada vale saber sem amar e
amar sem saber. Essa é a razão por trás de eu querer saber a respeito do seu
amor pela folia. Quando consegui entender, mesmo aqui de casa, senti meu amor
escapar do carnaval e encostar no réveillon, pois eu parecia um foguete de
artifício, desfilando avidamente pelo céu com meu saber; com o apetite para devorar
a gravidade e, enfim, ver o coração explodir de amor com sua felicidade. Ó, meu
caro folião! Como é bom ver-te animado pelos blocos carnavalescos que recheiam
a cidade. A temperatura do asfalto é quase esportiva. Ó, folião; quanta
energia, sorriso e ilusão suas pernas suportam? Suportam, não; Celebram! Cada
passo celebrante é lindo de se ver. A sua euforia aniquila os aprisionamentos
do cotidiano. Ó, meu caro folião! A liberdade e a democracia da festa colorem
os quilômetros acinzentados e acidentados, trazendo um viver cru em meio à uma
vida cruel. E numa cidade violentamente seca e ríspida, vejo com entusiasmo sua
plenitude ao matar a sede esbaldando-se, porque dentro do direito a existir,
está o direito de exagerar no existir. Ó, meu caro folião! Por último, gostaria
de contar-lhe um pouco sobre meus últimos aprendizados a partir da leitura
sobre o carnaval de São Paulo. Eu sei que não gosta muito de tratar sobre
política nas nossas cartas, e que já brigamos muito no passado por conta disso.
Entretanto, meu caro folião, acho relevante e do seu interesse este saber.
Acredita que foram nas gestões do PT no município que o carnaval paulista
construiu os alicerces para se tornar o maior do mundo? Tanto Erundina quanto Haddad
foram fundamentais para fortalecer as escolas de samba, a estruturação dos
desfiles e a democratização urbana e real da folia através dos blocos. Ó, meu
caro folião! Espero que seus amigos e amigas, após essa caravana de abraços,
danças, goles e beijos, possam saber dessas informações. Afinal, é carnaval! E
o carnaval de hoje versa sobre a política de ontem, tal qual o carnaval de
depois de amanhã canta sobre a política do amanhã. Ó, meu caro folião! O
cansaço de escrever já está me deixando cansada, confusa e levemente enfadonha.
Com a experiência de alguém que sabe pouco e te ama muito, beijos da Vó
Antonieta.


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