GPS
A vida possui uma infinidade de rotas, trilhas e caminhos. Embora essas palavras possam ser usadas como sinônimos, é fundamental percebermos a possibilidade de as significarmos de forma distinta. Caminho é uma escolha. Trilha é uma proposta de caminho desafiador, costumeiramente inédito e desconhecido. Já a rota, é o que pode anteceder o caminho ou a trilha. Logo, a rota é um caminho mapeado; planejado.
Um velho amigo respondeu-me certa vez algo profundamente transformador e afrontoso. Era um dia comum. Ideias e projetos para serem tocados e organizados. Ao entrar em seu belíssimo Fox vermelho vivo e me sentar no banco do passageiro, a conversa corriqueira, cômica e cultural precisava dar espaço para uma pergunta: Para onde estávamos indo? - Confesso que não me lembro qual era o destino, mas por ora, chamemos de “lugar de sempre”. E foi aí que aconteceu a afronta e a transformação.
O proprietário do carro começou a digitar o endereço no famosíssimo e criticado Google Maps. No ritmo impensado que a intimidade tem, sem examinar absolutamente uma única palavra, indaguei-o em voz alta – Por que está colocando no GPS, se sabemos o caminho? – Ou foi algo do tipo – O negócio é aqui do lado, por que “tá” pondo no GPS? – E do modo mais espontâneo que um amigo pode responder, veio o desenho: - Ué, para ver qual a melhor rota. - O mais intrigante sobre a frase foi perceber algo que saiu da boca dele feito desenho e chegou aos meus ouvidos igual unha rasgando a lousa. Foi quando a dúvida alarmante se inscreveu em mim: - Por que eu saber e ter feito o caminho “trocentas” vezes seria melhor do que confiar em um satélite que está fora da Terra? De onde eu tirei que meus olhos cansados e que não alcançam nada atrás do que estou vendo seriam mais confiáveis do que um mapa com quase todas as rotas da Terra? – Era difícil responder sem reconhecer a soberba, pois é fato que os taxistas quase não são mais convidados para esclarecer as rotas pela cidadela. E como pode o mundo inteiramente mapeado e o homem completamente perdido?
O GPS possui este formidável poder. Ele transforma nossa arrogância e afronta a masculinidade cultural com um simples traçado. Ter a certeza do caminho e dirigir bem – muitas vezes confundida com imprudência – são características dessa masculinidade cultural. Ora, o GPS é um giz de cera branco que estatela o quadro com a resposta correta e ainda sublinha. Subordinar um homem ao melhor traçado possível e com o tempo do trajeto, deveria ser para os atentos, uma pedagogia tranquila; por mais que você desrespeite as leis de trânsito, o tempo de viagem menor conquistado jamais valerá o risco envolto a uma direção irresponsável. Quanto se ganha? Três, cinco, quinze minutos?
A legitimação cultural do perigo torna as pedras extremamente pontiagudas nas trilhas. No caminho, com ou sem rota, os homens insistem em suas certezas desbravadoras sobre a vida, o tempo e o espaço. A tecnologia pode tentar, mas seria melhor apostar na corrida da Filosofia e da Literatura para resolver este problema. Marco Polo daria tudo para ter o Google Maps que você tanto reclama. A ciência produz o carro e o homem se vê Schumacher. Talvez a Psicologia consiga ajudar esse emaranhado de cartógrafos tirando convicções do cu. Meu Deus! Mais uma palavra que os homens precisariam de um cavalo de pau para compreender. Interpretar mapas pode ser mais fácil do que interpretar textos. Textos possuem caminhos, trilhas e rotas, mas não necessariamente destino ou destinatário, porque não se pode mapear a vida e sua metragem. Mas a título de sugestão, as ruas e rios estão por aí. Em um ou milhares de bocados de metros, vire à esquerda.


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