INSÔNIA

 

   Apimentaram meus olhos! E não era desejo ou luxúria. Era insônia; cujo cansaço intercepta qualquer energia capaz de exclamá-la. É o que acontece quando a vida, também chamada de tempo, é sequestrada pelo dinheiro. Pernas responsáveis e corajosas conduzem almas desesperadas pelo vale da exaustão. Não! O sono induziu-me ao erro. Não existem mais vales verdadeiros porque a grana acabou. Droga! Cérebro em vigília erra o dobro. Inspire e respire meio fundo, porque fundo demais induz ao risco de colar as pálpebras em pleno ambiente de trabalho. Vou reformular: não existem mais vales verdadeiros porque a grana concretou a grama e o rio. Os edifícios penetram o solo e insistem em brigar com Deus. Com torres que buscam superar as cadeias montanhosas, “vale” agora é nome de condomínio de classe média, ou no máximo, mineradora com máquinas modernas e cédulas ensanguentadas. Que merda! Sabe mirar no que vê e acertar o que não vê? “A grana acabou” faz sentido. O pensamento insone é meteórico! A grana acabou mesmo porque o “vale” para fazer o mercado já está no fim. Quantas coisas dá para pensar sobre uma única palavra? Existem nãos que duram uma vida inteira ou pelo menos mil e uma noites.

       Flamejaram meus olhos! E quem dera isso fosse uma exceção ou mera inflamação implorando orientação oftalmológica. Era insônia. Ela é consistente e incontrolável; constante, religiosa, invejável e invasiva. Ou seria implosiva? Ela nasceu como? Na maioria das luas, parece ser uma reprodução assexuada da angústia, tão definidora da nossa humanidade e mais presente em nosso cotidiano do que a racionalidade que o mundo a nossa volta ordena. Que desgraça! Está simples demais o enigma. Espera! Em muitas outras luas - a insônia acessa a falta de “suquinho” para a lancheira da criança e Star Wars em dois segundos, logo são milhares de luas – a insônia é a filha; não a progenitora. Que beco sem fim! Se o tempo fora feito refém pelo dinheiro, talvez seja o tórrido e trágico romance entre o sobreviver e o existir, e a matemática simples se “biologiza” e vira teste de DNA, porque a conta simples entre o horário em que preciso levantar para trabalhar, e o cada vez mais escasso tempo para dormir inviabiliza o repouso; e pior, me trucida.

             Salgaram meus olhos! E não era mar, suor, protetor solar ou shampoo. Era insônia. Tampouco aquele que aposto ter sido seu primeiro pensamento; as lágrimas. Insônia é tortura sofisticada, meticulosa e madura. Lágrimas não entram nessa equação. É curioso como um tormento com essa potência, devastação e profundidade não deságua em choro. É uma insanidade! Um inimigo invisível que me acompanha do “Intercine” à “Netflix”. O pior? Não há ninguém para brigar, transferir e deslocar a culpa. É você. Perdão! O sono falou mais alto. Sou eu! São meus olhos que estão batalhando para estarem abertos nesta quarta-feia. Que erro grotesco para um escritor! Desculpe, novamente. São meus olhos que estão abertos nesta quarta-feira como se limões tivessem sido espremidos sobre eles. Arrastar-se é horrível! Para cada noite de um bom sono, o preço costuma ser quatro ou cinco madrugadas muito mal dormidas. Aposto que existe algum perfil no Instagram com passos e soluções eficazes para combater a insônia. Pode ser que até mesmo você saiba o que eu deveria fazer. Em algum cantinho de nossos desgastados cérebros, temos uma dose de projeção heroica de nós mesmos. Com um pouco de maniqueísmo, conhecimento e autoajuda, se não nos precavermos eticamente, receitamos sentenças perfumadas de sugestões. A mais famosa delas responsabiliza o zumbi; os excessos. Tela, comida e café! Está formada a tríade pecaminosa dos crimes do insone. O álcool a derrotara em muitas estrelas de meu mapa, mas o preço foi bruto, extenuante e crônico. Sem dormir, a crônica será batida, assim como a crença. E a coesão, que cria o texto e crava a vida, quebra. Cremaram meus olhos. 



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