CRÔNICAS DA COPA I - PRIMEIRA RODADA ( DO BRASIL AO BASQUETE: BAQUES E BODOQUES )

 

A primeira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo chegou ao fim. A temporada da NBA de 2025/2026 também; e com ela, o jejum que atormentou os Knicks por 53 anos está oficialmente encerrado. Além de acontecerem no território nefasto promotor de guerras, fome, desigualdade e fratricídio simbólico sobre toda a humanidade, o que mais a saída da fila nova iorquina ensina àqueles que estão dedicados à Copa do Mundo? A trilha que culmina em uma taça é um processo de múltiplos passos. Por isso, ir devagar com o andor é a atitude mais prudente, embora qualquer texto sobre a primeira rodada de uma Copa do Mundo tenha boas chances de envelhecer como leite fora da geladeira. Assim sendo, fatiemos o queijo.

O Marrocos fez um chá revelação para o Brasil sobre o quão estática a seleção pentacampeã se tornou. São muitos erros! Por se tratar da esperança das crianças, melhor deixar o queijo em cubos. Dentro de campo, o time de Ancelotti demonstra estagnação tática, lentidão, falta de leitura e intensidade no meio campo. Casemiro está carregando a culpa que pertence ao sistema de marcação e desajuste dos movimentos como bloco. Falta talento, iniciativa e liderança! A Copa começa mal para o Brasil. Ofensivamente, um deserto de ideias; defensivamente, complacência e silêncio diante da adversidade. A seleção acusada nos últimos anos de distanciamento da população, não mora na Europa; ela mora em um limbo! A equipe está “sem ataque e sem defesa” e, a canção de mesmo nome da genial Beth Carvalho, mostra que esse é o pior cenário possível para um time de futebol, pois não trata apenas das falhas, derrotas, erros e tristezas, tem a ver com conformismo e as profundezas de estar perdido. Nessa lógica, a seleção caminha para ser, assim como na música, um amor que, “veja só”, não deu em nada.

O corte em cubos do queijo é um convite para a literatura. Fora do campo, os atletas de fato vivem em casulos onde há sempre alguém para lhes dizerem o quão certo estão, o quanto o mundo está errado e os perseguem, e são protegidos constantemente por coisas e narrativas que o dinheiro pode comprar. A bajulação é uma das coisas mais perigosas do mundo – casamentos sólidos ensinam isso aos homens –, mas a seleção é um time de meninos. A covardia está estampada no rosto do astro do Barcelona e a camisa pesa toneladas para a maioria dos atletas convocados. Não é preciso puxar a capivara da CBF para responsabilizá-la. A política funciona como Kimmich, Pedri, Vitinha, Bellingham, Tchouaméni, Enzo Fernandes e Modric. Isto é: as alternativas já estão prontas quando a marcação se aproxima, cerca e tenta o roubo de bola. Os passes já saíram para todos os lados e sentidos possíveis do campo, e assim é a política. A CBF e seus membros jamais admitirão publicamente que o Brasil não ter em sua geração um meio-campista do nível destes citados acima, é um dolo de sua alçada. E as laterais? Percebem? A CBF é a mãe desse limbo porque ela retroalimenta seu próprio fracasso como entidade. Discursos honestos não combinam com a política, e ninguém explicará o leite em sua integralidade: O time de 2026 é fraco e o futebol brasileiro está na lama há muito tempo.

A evolução do esporte está em seu ápice físico, tático, psicológico, estatístico, técnico e, portanto, coletivo. O conservadorismo que habita o futebol brasileiro em parceria com os mistérios que tornam o futebol único, levam e elevam as expectativas para patamares mentirosos. A torcida, a federação e os atletas acreditam piamente que um pretenso talento os salvará. O problema é que a primeira rodada da Copa do Mundo mais uma vez escancara que mística não é suficiente. É necessário trabalho, organização, comprometimento e mentalidade. Na seleção, ainda falta sobretudo coragem! Para fazer e para mudar. Reféns do saudosismo, pois o futebol que tornou o país pentacampeão do mundo não existe mais. E agora a bola laranja que levou Spike Lee a se tornar uma criança novamente pode ilustrar isso.

A evolução esportiva está em todos os lugares. O basquete por exemplo, nos últimos anos, mostra um reposicionamento importante para que a vitória seja conquistada. A ideia de uma grande estrela ser suficiente para alcançar a taça não é mais verdadeira. Agora, o coletivo é a coisa mais importante. Reservas que conseguem contribuir, alas que jogam bem nos dois lados da quadra, pivôs que cumprem funções específicas, muita organização, perna e fôlego. Oklahoma e Indiana, finalistas da NBA no ano passado, provaram isso. E os Knicks, vice-campeões no Leste ano passado – perdendo justamente para Indiana – e campeões agora, estatelam este ponto como um “zap” explode a mesa em uma partida de Truco. Ora, o quinteto de jogadores se manteve, mas a profundidade, o uso do banco e um basquete praticado de forma mais coletiva, isso sim, os levou à glória. E para formar o quinteto titular, a estrela Jalen Brunson abriu mão de mais de U$100M para que o time pudesse trazer jogadores capazes de ajudar na corrida pelo título. Quando um jogador de futebol brasileiro abrirá mão dessa quantidade de dinheiro porque o Esporte tem a prioridade? A decisão do armador MVP das Finais da NBA em 2026, transcende o que acontece dentro da quadra. Sua visão tirou os Knicks do abismo - onde há muito para aprender – e o levou ao olimpo.

Gigante pela própria natureza é a pressão que a seleção enfrenta. Contudo, o desafio psicológico posto não é o maior obstáculo, porque mesmo que a estrela negra Vini Jr pareça ser o único a entender o significado e o senso de urgência que a Copa exige, após a primeira rodada, o mais sufocante entrave para a seleção canarinho é epistemológico e, na verdade, algo muito mais simples de dizer e entender do que essa palavra: falta bola; falta futebol. Esse coma induzido que CBF, atletas, ex-atletas, treinadores e parte da imprensa jogaram o futebol, pelo andar da carruagem e pelo mugir, está longe de acabar. Prenunciar tragédias tem mais a ver com profetas do que poetas, mas o enunciado está mais simples de interpretar do que as Memórias Póstumas de Brás Cubas. O Brasil está sem refino e sem identidade. Pode-se contra argumentar sobre os empates de Espanha e Portugal na estreia, mas ambas apanharam de olhos abertos. Existe uma proposta! O show recorrente de Messi, a vitória alemã por 7x1 contra um time que joga de azul e amarelo, a dinâmica coletiva do excepcional Harry Kane, ou a coletividade talentosa e veloz dos franceses, revelaram a profundidade do abismo. Destas forças, várias serão derrotadas, porque apenas uma equipe pode vencer a Copa do Mundo. Talvez todas sejam derrotadas, porém há certeza de que, quando perderem, perderão jogando, lutando, correndo, competindo e jogando coletivamente. A certeza de que isso falta aos que vestem a “amarelinha” é o que esgana as tetas e tretas desta Mãe hostil. Haja hóstia, porque o coração está no precipício.

      O próximo desafio é o Haiti. A seleção da América Central, como era de esperar, possui uma postura aguerrida e corre muito. Falta talento e sobra esforço. O futebol não é atletismo e nem pebolim. Análises frescas em largadas de Copas podem ser precipitadas e os atletas terão a chance de jogar o texto no limbo. Até onde vai essa coalhada? A ver.


(Foto por CHARLY TRIBALLEAU / AFP)

Comentários

  1. Perfeito, meu querido. Agora é aguardar as cenas dos próximos capítulos. Haverá ainda muita emoção. Um abraço.

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