CRÔNICAS DA COPA II - DEUSES E DEMÔNIOS

 

A Copa do Mundo é sabidamente conhecida pelos atos imortais. Os olhos e as lentes saltam na direção do acontecimento, o que nos leva a reinterpretar o quanto a vida é, mesmo e muito, árdua, milagrosa e perfeita. Perder nos pênaltis sempre será melhor do que não jogar, porque nada habita o deserto seco e árido da morte; não existem lágrimas para secar, produzir, compartilhar ou beber. É na vida que a vida encontra o medo e a coragem, a garra e a vaidade, a desonestidade e a virtude, o sacrifício e a derrota. Por isso, as cenas épicas imortalizam os deuses e demônios do espetáculo. A defesa de Dibu Martinez no final da prorrogação, no jogo da taça em 2022, ou a não defesa de Alisson nos chutes belgas em 2018, em especial o de De Bruynne, roteirizam a imortalidade própria do esporte; não necessariamente justa, mas eterna. 

Só que eternidade e definitivo não são sinônimos. Os acontecimentos são eternos. Entretanto, o papel imortal que o jogador ocupará na mitologia não é definitivo, pois depende e dependerá da obra que lhe cabe e da obra que lhe entregarão, porque a vida é coletiva; não pergunta absolutamente nada sobre o que queremos ou gostaríamos, e conta mais do que o ser humano consegue compreender. Se não era futebol, era coisa de grandeza similar quando alguém em Roma pronunciou “Sorte” pela primeira vez. Prever o futuro é tarefa frágil. Quase sempre dá azar, vide gritar gol antes da bola cruzar a linha. Mesmo assim, escrita e literatura são guardiãs da imortalidade e anteveem coisas que pertencem às decisões do próprio personagem. 

Neuer foi deus na maior parte do tempo, mas já teve seríssimos e históricos momentos diabólicos. A literatura já sabe que ele será listado como deus no panteão, porque revolucionou a posição, possui um reflexo e velocidade únicos, joga com os pés, demonstra liderança e se tornou mitológico. É o goleiro que faz o atacante chutar para fora pelo mero motivo de ser “ele” embaixo da trave.

Harry Kane dificilmente carregará qualquer tipo de vilania para a imortalidade. Postura, comportamento, liderança e muita genialidade jogando. Se não levar o English Team à glória, será uma daquelas histórias em que o troféu da Copa é quem o perde, e não o contrário.

Zico é o maior craque da história do futebol a não conquistar uma Copa do Mundo? Os relatos, vídeos e análises dão conta de que ele foi um jogador melhor que Romário, Rivaldo e Ronaldo, por exemplo. Outros afirmam que em “bola jogada”, se aproxima de Maradona e Messi. De qualquer forma, o tempo lhe concedeu um lugar entre os deuses.

Leônidas da Silva, menos mencionado do que deveria, é listado como o grande ícone do futebol brasileiro pré-Pelé. Um dos responsáveis pela identidade do futebol brasileiro, foi artilheiro e melhor jogador da Copa de 1938 e, mesmo sem Copa, atingiu um lugar entre os deuses.

Johan Cruyff é um dos maiores personagens do futebol sem Copa. Dentro e fora de campo, um dos deuses que revolucionaram o esporte. É comum ele ser lembrado como símbolo da identidade do futebol holandês e, no imaginário popular, ser usado para sintetizar a ideia de que a Holanda “joga como nunca e perde como sempre”. Resultados esportivos não se sobrepõem ao próprio esporte como substância. O futebol que se conhece, se admira e se pratica hoje está intrinsecamente ligado às contribuições do holandês. Existe um A.C e D.C para Cruyff.

Zidane, o deus francês, – muito mais craque que Mbappé - viveu grandes jornadas: conduziu a França ao primeiro título em 1998, em uma final contra a seleção brasileira, que até então era a atual campeã e única tetracampeã. Os 3x0 com dois gols dele no jogo derradeiro lhe concedeu imortalidade vitoriosa, mas o futuro reservava um complemento perfeito. Se não para ele, para a história entres deuses e demônios. 

A Copa de 2006 na Alemanha era a última participação como jogador profissional de Zizou. E as pessoas já sabiam disso. Foi um show! Zidane conduziu os “Bleus” com atuações históricas contra Espanha na fase de grupos, e principalmente contra o Brasil nas quartas-de-final. A final contra a Itália e o pênalti para a França no tempo normal, levaram o deus a enfrentar outro deus: Buffon. O italiano era tido como o melhor goleiro do mundo disparado e, para muitos, o melhor da história. Zinedine lançou uma “cavadinha”. A bola triscou o travessão e desceu lentamente até tocar por completa a parte interna do gol. Gol da França! A Itália empatou e a final foi decidida nos pênaltis. Contudo, Zidane não estava lá. A expulsão mais icônica da história do esporte, com a imagem do craque deixando o campo de costas para a taça, com o número 10 saindo e a taça ficando, chocou um mundo que sequer vivia à mercê dos “likes”. A atitude de “dar” uma cabeçada no peito do zagueiro italiano, após este proferir ofensas verbais contra a irmã do astro, foi bem mais que cinema. Foi identidade, “quebrada”, vida e natureza humana em estado puro. Passados 20 anos, já se pode falar que o segundo título jamais daria a ele o lugar no esporte e na memória das pessoas que esse gesto, associado a toda sua obra como atleta, lhe rendeu. Pergunte a qualquer pessoa viva que estava consciente na época; todas se lembrarão. O troféu ficou com a Itália, e a Lenda ficou com Zidane. 

O futebol inunda de fantasia e esperança a vida das crianças. São figurinhas, vídeos, imitações de comemorações, “cards” e Super Trunfo. Deuses e demônios têm características como as das cartas infantis, e suas valências produzem rankings para adultos conversarem antes de seus futebóis dominicais.

Messi já era um deus como Zico e Cruyff antes de vencer a Copa no Catar em 2022. O início da jornada de 2026 traz uma expectativa mágica e arrebatadora. O fim tende ao épico, seja qual for o resultado, pois a eternidade é uma garantia para um gênio.

A cada passo, ele vai se posicionando à esquerda – por ser canhoto -, de deus pai. Sua liderança, determinação, cuidado, humildade, talento, garra, longevidade e inteligência parecem intermináveis. Mas não são. Sem a mesma velocidade, ele encontra uma maneira de, aos 39 anos recém completados, ser o melhor jogador de futebol do planeta com sobras. A carta do Messi é a mais forte do jogo e todos sabem disso. A cada passo rumo ao posicionamento para a cobrança do escanteio, as lentes e olhos se tornam vívidos, emocionados e sublimes para acompanhar os passos do Super Trunfo. A cada passo, o debate em comparação à obra de Pelé provavelmente aumentará. E esse já é um dado da realidade. Interditar a possibilidade de diálogo nesses termos é o pedaço de madeira que nos sobrou para agarrar no oceano. Apenas nos botequins brasileiros a discussão é inválida. Ora, no jogo que se pratica nos últimos 50 anos, inventado por Pelé e Cruyff, Messi é disparadamente o maior e melhor. Se isso e seus próximos passos lhe renderão o direito de sentar no trono centralizado, é uma pergunta ainda sem resposta, quer queiram os santistas, quer não.

Por falar em “Belmirolândia”, enquanto Messi, Halland, Mbappé e até o superestimado Cristiano Ronaldo brilham, o craque que ostenta as famosas camisas 10, tanto do time praieiro, quanto da “amarelinha”, mantém-se, ironicamente, firme no deserto. Não haverá meio termo para ele! Como diz a canção de Bob Dylan – este um deus de outros céus -, “Bater na porta do paraíso” não será suficiente para Neymar. Ou ele entra, ou a queda para capitanear os demônios da história do futebol será inevitável. Os textos sobre desperdício de talento estarão prontos. A cada gol de outra estrela, o tormento aumenta. A responsabilidade? Certamente do próprio. Os deuses citados acima, são homens cheios de defeitos, como qualquer ser humano. Alguns devem ter posições políticas e morais até parecidas com nosso jovem 30+, mas a diferença é a postura, a ética de trabalho e a esperteza. Seriedade e não falar besteira em microfones costumam ser boas estratégias de assessoria. Contudo, cercado por bajuladores de todos os lados, fica difícil enxergar o próprio erro. Michael Jordan, Todo-Poderoso de outro céu, e que se senta centralizado, relata o quanto aprendeu com os arremessos que esperavam que ele acertasse no último lance, mas que infelizmente desperdiçou. Messi também passou por isso e, ao invés de observar e desenvolver a malandragem, nosso jovem 30+ insiste em brigar com o mundo que escolhe, emoldura, coloca e o tira do panteão. Além de faltar sabedoria e discernimento, sobram talento, teimosia e burrice.

Alisson em 2018, Felipe Melo em 2010, e Dunga em 1990 não são demônios; são pessoas. O último até virou herói e capitão do Tetra. O esporte permite espaço para semideuses e pessoas comuns que podem se tornar deuses, às vezes quando menos se espera, e da forma mais inimaginável possível. O uruguaio Luis Suárez nunca foi sequer um craque. Seus dribles e jogadas, desde os tempos de Liverpool, não são plásticas ou bonitas. Várias dessas jogadas parecem estabanadas e fortuitas. Isso é injusto. O nome disso é garra, mentalidade, disposição e coragem. O histórico centroavante está assistindo a celeste dos camarotes – El loco Bielsa não o convocou -, e a bola jogada pelo time uruguaio mostra que foi uma decisão equivocada não levar o mordedor. O esporte guarda segredos imensuráveis e impossíveis de caber em uma estatística, e a carreira do pistoleiro têm muito a ver com esses segredos. O que de vez em quando falta aos supertalentosos, sobra ao “apenas” talentoso Luisito. Foi esse espírito de resultado material e origem imaterial que levou Suárez à categoria de semideus. A mão na bola contra Gana em 2010, a mordida contra a Itália em 2014, o talento e sua prática o conduziram à imortalidade. 

Assim como ele, Vinicius Jr é um excelente jogador e um craque da sua posição. Mas nunca foi um gênio. Na história do Real Madrid, time com laços históricos politicamente à direita, Vini já é um semideus pela qualidade e coragem com que atua. Na seleção, lhe faltava ser Suárez. Nesta Copa, a malvadeza encontrou seu protagonismo. Jogou bem os dois primeiros jogos e foi um dos poucos – senão o único -, a chamar a responsabilidade. Por isso, ainda restam doses de esperança. Porém, times que passam muito tempo na fila, quando perdem, costumam jogar o barco inteiro na direção do Iceberg; o lugar de Vini na foto como demônio é bem perto do jovem 30+. 

Essa ironia sempre habitou a nossa relação como humanidade e sujeito. Poucas coisas são mais coletivas do que uma derrota ferrenha. Na vida e no esporte, você pode fazer todo o possível, e mesmo assim perder. Que comece a última rodada da fase de grupos e o mata-mata da Copa do Mundo de 2026, porque como a vida, a Copa é um roteiro de pouca festa, muito trabalho, cansaço e lágrimas. A única certeza de uma Copa é que após a primeira rodada festiva, o latifúndio das emoções começa a produzir vilões e demônios em larga escala. Quem serão os pouquíssimos heróis, semideuses e deuses? A ver.



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