CRÔNICAS DA COPA III - A OUSADIA COMPRA A PASSAGEM


   A Copa do Mundo de 2126 promete ser incrivelmente disputada. O outrora país do futebol, diante da completa verticalização de seus territórios urbanos, que extingue e elitiza os acessos a quadras e campos para a prática do futebol, inviabiliza o asfalto, a pista e o parque e investe em esteiras e supinos “smartíssimos”, está fora este ano. O preço dos prédios a perder de vista e destruição cultural e ambiental a prazo estão na mesa para a seleção brasileira. A terra onde canta o celular está sem sinal. A grana e a grama de mentira encontraram, enfim, seu destino; a mil reais da catraca e a mil léguas do gol.

     Muita coisa precisaria acontecer para o Brasil não ir à uma Copa. Muita coisa precisaria acontecer para o Brasil não ser candidato a vencer uma Copa. A diferença é que existem candidatos e candidatos reais, competitivos. Avaliar o que aconteceu na histórica segunda-feira, 29/06/2026, requer a ponderação que a crônica rejeita e o artigo superestima, porque “tudo chorando seria monótono, tudo rindo muito cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida”. Há muito de Machado de Assis na crônica esportiva brasileira, e sabe-se lá Deus o que ele faria com as letras se o futebol desfilasse esse nível de emoção para seus olhos, mas uma fina e avassaladora certeza é dizer que ambos, Machado e Futebol, inspiram e transpiram doses cavalares de ousadia.

     O Paraguai foi ousado, assim como o Japão. Coragem não é uma unidade medida pelo resultado neste caso, pois o atrevimento paraguaio não está em derrotar a tetracampeã Alemanha; está em jogar com as armas que estavam disponíveis. Foda-se a opinião da FIFA, dos adoradores de um futebol propositivo, ou da baliza ética do futebol europeu. As armas eram as pernas, o jogo psicológico, o calor, a cera e o que fosse preciso. A seleção paraguaia, constantemente vítima de xenofobia por parte dos próprios irmãos latino-americanos, transformou a Copa em Libertadores e, com mobilização tática e voracidade para defender, levou a equipe alemã para o que o futebol é de fato: um jogo de sobrevivência. Os alemães simplesmente não compreenderam. Nenhum senso de urgência para acelerar o jogo, e agora, o time pessimamente comandado pelo técnico Nagelsmann, não troca passes; no máximo olhares, em um avião que só ouve as turbinas e a agonia que a consciência imputa quando se está no céu a caminho do inferno.

       A ousadia japonesa merece os devidos elogios. A postura e cultura esportiva dos nipônicos, sem postergar o jogo, sem fingir lesão, sem pontapé, sem chiliques à beira do campo, lembram muito o chamado “espírito olímpico”, e isso é motivo de aplauso; mas não de classificação. Os japoneses defenderam sua identidade e foram extremamente valentes. Mas assim como os alemães, não absorveram que o futebol, sobretudo na Copa, não é um jogo de quem faz mais gols, e sim um jogo de sobrevivência. Pressionado e faltando um minuto para acabar o tempo regulamentar, jogadores não podem tentar um passe curto dentro da área. Era preciso dar um bico para fora. Não o fez, e o voo de volta que já é longo, será um tormento ainda maior para Tanaka.

        Será que a ousadia é um elemento capaz de distinguir candidatos de candidatos reais? Onde está o Brasil em 2026? Apesar de pragmático, Ancelotti foi ousado ao resistir à tentação óbvia de colocar Neymar quando o jogo se encaminhava para a prorrogação. Um detalhe e um contra-ataque e tudo estaria acabado. Mas este Brasil de Ancelotti arrisca ao escolher competir minuto a minuto, levar o jogo para lama se preciso e ter a inteligência emocional para os momentos agudos. O italiano é um vencedor por conhecer esse jogo de sobrevivência que o futebol é. Deixar a filosofia para Guardiolas e Klopps pode se tornar burrice rapidamente com o decorrer da competição. Entretanto, a seleção fez aquilo que o jogo pedia. A aposta na pressão da segunda etapa, explorando a altura e a fisicalidade foram certeiras. Bruno Guimarães fez um passe de cinema no último minuto do jogo. Ele foi o melhor em campo com sobras, e vai se revelando um meio-campista capaz de conduzir o candidato Brasil, ao posto de candidato competitivo Brasil. A gritaria e a emoção das crianças com o gol de Martinelli foi um triunfo que não se via – e ouvia – há muito tempo por este país.

           O Twitter ainda exaltava o brilho brasileiro, a estratégia paraguaia, a “pipocada” de Goretzka, o golaço do pentacampeão no último minuto e o fiasco da tetracampeã, quando Holanda X Marrocos encerraram a segunda-feira inesquecível com mais um jogo epopeico. Ficou claro que este duelo poderia acontecer em uma fase mais afunilada da competição. As duas seleções guerrearam pela classificação de forma surreal. O gol de Gakpo, na possivelmente pior semana de sua vida – a esposa sofreu um aborto espontâneo -, foi difícil de entender e digerir. Mesmo introspectiva, a reação do holandês ao próprio gol foi estrondosa, pois revela ao mundo que a vida está fora das quatro linhas de quatro em quatro anos, e que sua perda, assim como o que acontece na Venezuela, Irã, Ucrânia, Líbia e Palestina são muito maiores que qualquer partida de futebol. De volta ao jogo, a equipe de Marrocos colocou a Holanda nas cordas. A intensidade, velocidade, toque de bola e força física foram impressionantes durante o embate. Como gostam os roteiristas da Copa: gol de empate nos acréscimos para Marrocos, prorrogação muito menos ousada que o tempo normal e pênaltis. O goleiro da Holanda, possivelmente o melhor em campo, defendeu uma cobrança que virou gol contra – coisas da Copa -, e Bono, arqueiro marroquino de confiança inabalável, fez a diferença. O técnico holandês, ousado como Ancelotti, não deu um único minuto para Memphis participar do jogo ou dos pênaltis. E pior, os que entraram foram justamente os que desperdiçaram as cobranças. A icônica camisa laranja, de cor mais viva que em anos anteriores, morre mais uma vez. E de novo nos pênaltis. E de novo com um time bom, moderno e talentoso. O capitão Van Dijk e Memphis, provavelmente se despedem dos mundiais rumo à galeria dos gigantes holandeses que não conseguiram quebrar essa sina; e a lista é enorme. A Copa globalizada e da diáspora, abriu espaço para ser poeticamente trágica e ousada, ao manter uma tradição intacta: a Holanda é a maior seleção do mundo sem tê-lo conquistado.

     A Copa de 2026 continua. A felicidade que tomou nossas ruas ontem foi genuína, coletiva e épica. Tudo aquilo que liberdade e direito ao território costumam conferir. O futebol pertence aos sobreviventes. Não aos que escolhem entre o coração e o equilíbrio emocional, mas aos que os desenvolvem para operarem juntos. Seguramente, pertence aos ousados. Um olhar lírico ou analítico, demonstra que simbolicamente, os paraguaios já podem chamar a Copa de 2026 de sua. O Brasil chegou à Copa como candidato, e como equipe, está crescendo na hora certa e decisiva. Ser um candidato real dependerá de certas ousadias, porque o desafio Holanda X Marrocos trouxe uma categórica evolução esportiva, filosófica e atlética. A queda da Alemanha e as dificuldades enfrentadas por Portugal e Espanha são outros exemplos da mudança. A posse de bola e o “tik-taka” não bastam. O jogo evoluiu para uma velocidade e fisicalidade jamais vistas. Associadas a técnica e tática, força, pulmão e músculos se mostrarão decisivas para separar os candidatos dos candidatos competitivos. Carlo Ancelotti, pouco conhecido pela ousadia, precisa repensar os papéis de Casemiro e Danilo como titulares da equipe, se quiser se aproximar de França e Argentina e disputar o título de fato. O futebol ousa em educar conservadores e progressistas, porque ousar demais ou de menos é explicação de ruína há muito tempo. O mundo de 2126 está absurdamente longe, mas a ousadia estará lá. O que está fresco e se torna uma das maiores quebras de paradigma da história do futebol, não é o renascimento do Brasil Pentacampeão e sua reconexão com seu povo, muito menos a longa jornada psicanalítica que a Tetracampeã Alemanha terá que enfrentar após cair para o Paraguai, e sim a chegada definitiva e competitiva do Marrocos, este como um candidato real e experimentado em seu limite máximo. O Marrocos pode ser campeão do mundo! Uma seleção africana pode ser campeã do mundo. Será? A ver.

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