O ESPORTE EDUCA I
O esporte educa! Em semana de abertura de Copa do Mundo, os últimos acontecimentos do mundo esportivo são pedagógicos em muitas esferas. Embora o noticiário insista em colocar a seleção canarinho como o centro da Terra e continue a pregar uma contraditória “mística concreta” - aquela que levará os nascidos no novo milênio à glória jamais vista –, as notícias mais inúteis e irrelevantes esportivamente são sobre a seleção brasileira e seu último amistoso. Por quê? Porque o esporte educa, ou deveria educar. Com a vênia que o trocadilho exige, aprender com as histórias e narrativas esportivas são dores e prazeres crônicos, sublimes e sufocantes, como costuma ser essa coisa que se chama vida.
O Roland Garros, torneio queridíssimo dos brasileiros pelo carisma de seu tricampeão, Guga, chegou ao fim com o título inédito de Grand Slam de Zverev sobre o italiano Flavio Cobolli. Mas antes de aprender com o alemão, linhas para o Brasil, cuja jornada com bolas limítrofes e muitas vezes na linha, terminaram indo para fora. João Fonseca, um desses jovens nascidos no terceiro milênio que jamais viram o futebol brasileiro no topo do mundo, teve uma participação sólida, valente e tecnicamente ótima. Derrotar Novak Djokovic é uma dessas coisas para contar para os netos. O sérvio é um dos maiores tenistas da história – o maior é Roger Federer indiscutivelmente – e partidas são vencidas no presente. Nunca no passado e nunca no futuro, e a altivez e o brio do garoto ensinam isso. O esporte educa. E podia educar ainda mais, porque ele também politiza. O talento de Novak se equipara à sua capacidade de falar besteira. Mundialmente conhecido pelo tênis, e por ter se recusado a se vacinar durante a Pandemia, além de outros comentários machistas ao longo da carreira. Só que o problema, talvez, seja que a única diferença entre ele e outros atuantes do glamorosíssimo mundo do tênis, foi ele ter transformado seus pensamentos em áudio. Afinal, partidas começam zero a zero, e a vida definitivamente não. João Fonseca é um desses pouquíssimos jovens milionários que tiveram a oportunidade de se dedicar ao tênis. A crônica não precisa de dados. A crônica exige cotidiano. Tênis é esporte de rico, e o povo brasileiro, preocupados com Endrick e Neymar, sabe disso. Diminuir o feito do garoto não é certo, e seu desempenho, garra e dedicação ensinam, assim como seu privilégio.
A taça dos Mosqueteiros ficou com Alexander Zverev, que perseguia essa conquista há muito, muito tempo. Com a emoção dos 5 sets para vencer, a carreira do alemão é vencedora e recheada de percalços. Mesmo sendo bicampeão olímpico, Grand Slams são os torneios mais importantes do tênis, e ele não havia vencido nenhum. Sempre batia na trave, e muito disso era associada à sua parte mental. Ou como preferem as arquibancadas daqui, nos Grand Slams ele era um “pipoqueiro”. Nascido nos anos 1990, e já tendo visto a seleção bávara vencer a Copa justamente no Brasil, ele é apenas o terceiro tenista nascido na década de 1990 a vencer um campeonato desse tipo, ao lado agora do russo Daniil Medvedev, alvo constante de xenofobia, e o austríaco Dominic Thiem. A era Federer/Nadal/Djokovic, e a ascensão meteórica de Sinner/Alcaraz, levou os tenistas que se lembram do falecimento de Michael Jackson a esses resultados. Ou seja, resultados não dependem exclusivamente de talento. Às vezes as condições históricas podem ser desfavoráveis. Mas esse não é o principal aprendizado da conquista do portador de Diabetes Tipo 1. A simbologia está na quadra e no barro. A famosa competição francesa, jogada na terra batida – saibro para os próximos – já carrega uma estética épica alaranjada. E no caso do alemão, a maior realização e o maior desespero aconteceram justamente na quadra que ontem o coroou. Ele rompeu vários ligamentos do tornozelo jogando uma semifinal contra o Rei do Saibro, Rafael Nadal. Naquele dia, ele deixou a quadra em lágrimas de dor; caído e carregado. E depois de 1466 dias, ele se jogou no chão de terra seca, e com cachoeiras nos olhos, sagrou-se campeão do que sempre sonhou. Persistir e lutar são mais do que forças do âmago. Para pessoas que chefiam uma família com muito menos dinheiro que Zverev e João Fonseca, também são performances. Há severas preocupações sobre ensinar isso aos filhos. Seja pelo diálogo, seja pelo exemplo. O mundo não é justo! O esporte não é justo! Ambos educam e politizam, e não à toa, a filosofia é uma doença crônica da vida. O Brasil conquistar o Hexa é uma pergunta sem resposta. Aos que jogarão e torcerão, aprender é quase uma certeza. De um jeito ou de outro.

Comentários
Postar um comentário