CRÔNICAS DA COPA V - 05 DE JULHO DE 2026
05 de julho de 1982. A seleção
brasileira sofria a mais impactante derrota de sua história em Barcelona,
diante da Azurra de Paolo Rossi. Exatos 44 anos depois, em um domingo também
ensolarado, a seleção canarinho pereceu frente a Noruega, e não há paciência
para enfeites literários nesta crônica. Quando o que os olhos veem ferem derradeiramente
o coração, a realidade, que não mora na literatura, precisa vir à tona.
A pior campanha desde 1966 e o abandono
completo da identidade do futebol brasileiro. Foram essas coisas que a derrota
de 2026, mais uma vez, revelaram. Chamar a derrota de 1982 como a mais
“impactante” da história pode parecer exagero. Entretanto, a palavra impacto
não trata somente das sensações e sentimentos que provoca, mas há o sentido de
ser o que modifica. E isso é desesperador. A derrota de 1950 em casa para o
Uruguai foi perversa e doída, mas 8 anos depois, Pelé se apresentou ao mundo
para explicar como o esporte inventado pelos ingleses poderia ser jogado.
Também em casa, o mundo assistiu perplexo a maior humilhação da história do
esporte, quando o Brasil sucumbiu para a Alemanha – e sua própria soberba -,
por 7 x 1 em uma semifinal. A traumática derrota, que produziu uma ira aos
germânicos pelos botequins que duram até hoje, impactaram apenas a terapia, o
registro histórico e a própria seleção alemã, que de lá para cá, abraçou o
ostracismo e a falta de competitividade. O impacto para o Brasil foi 0, porque
absolutamente nada se modificou.
A vida é de uma ironia atroz. “A tragédia
do Sarriá”, como ficou conhecida a derrota do Brasil em 1982, foi em Barcelona.
É curioso, filosófico e simbólico que tenha acontecido justamente lá. O
Barcelona, conhecido por ser “més que um club”, possui em sua história um DNA muito
bem definido. No limite, Lionel Messi se formou como atleta a partir da
filosofia da equipe catalã, e o que faz aos 39 anos tem mais a ver com seu
cérebro do que suas pernas. Cruyff foi fundamental para a instalação deste
modelo de jogo no Barcelona. Coragem, passe, coletividade e ofensividade. Jogar
futebol de fato; com a bola. E esse rio desaguou na seleção espanhola, que
conquistou o mundo em 2010 a partir da modernização da filosofia do Barcelona,
através dos preceitos e meio-campistas forjados pelo clube e, especialmente,
por Pep Guardiola: “Essa Seleção foi uma das melhores que existiram (...) foi
uma equipe extraordinária”, e essas são as palavras de Guardiola sobre,
acreditem, a seleção brasileira de 1982.
O impacto do quarteto de craques Cerezo,
Falcão, Sócrates e Zico se estendeu muito além de nossas fronteiras. Só que as
situações em que o futebol fala A e o resultado fala B podem funcionar como uma
Coca-Cola no deserto; isto é, faz mal, entrega sobrevida mas mata. Ou melhor,
induz o erro dos que bebem certezas e mijam dolorosas pedras nos rins. Foi a
queda em 1982 que levou o futebol brasileiro a ressignificar o que precisaria
ser feito para o país conquistar o mundo novamente. Esse rompimento com a
identidade se apoiou na seguinte nova formulação: defesa forte e ataque
talentoso. Isso moldou o pensamento que domina o futebol brasileiro, porque foi
assim que o Brasil saiu da fila em 1994. E daí, os resultados copeiros
conquistados por Felipão, tanto em clubes nos anos 90, quanto o penta em 2002,
sacramentaram a escola “gaúcha” de técnicos de futebol como modelo filosófico
de jogo. Com a saída das estrelas brasileiras para o futebol europeu, a
qualidade do jogo por aqui sofria, e a ampliação dessa filosofia se deu com os
resultados esportivos conquistados por Muricy Ramalho, Tite, Mano Menezes e,
pasmem, Dunga. A Espanha aprendeu tudo que a identidade do futebol brasileiro
tinha de bom, e o Brasil aprendeu tudo que a identidade do futebol europeu
tinha de ruim, a começar pela formação de atletas. Em tempos de misteres e
professores, pior que colar, é colar errado. O futebol brasileiro escolheu um
caminho autodestrutivo, ao forjar atacantes pelos lados aos milhares, e se
esquecer da poesia da banda Skank, porque sim, “o meio campo é o lugar dos craques”.
Rei
de Nova Iorque e craque do New York Knicks, Jalen Brunson assistiu in loco à
derrocada brasileira de 2026 para a Noruega. Há um termo no basquete americano
para o que o armador, atual melhor jogador das finais da NBA, faz em quadra nas
partidas em que a defesa adversária não encontra resposta e ele dita o ritmo do
jogo; “cookin”. A tradução em português é “cozinhar”. Odegaard jogou com
requintes de crueldade, e cozinhou o Brasil no segundo tempo. O camisa 10 norueguês
ficou mais perto do patrimônio cultural Olodum do que qualquer jogador
brasileiro, pois diante do calor similar ao da Bahia, ele superou o arquétipo
do maestro e foi verdadeiramente um ritmista; ora andando, ora correndo. A
seleção brasileira tinha obrigação de deixá-lo desconfortável, e em nenhum
momento isso aconteceu, consolidando o quanto a seleção brasileira está
atrasada em preparo, espírito e estratégia.
Outras celebridades marcaram presença no
vexame. Considerado um dos melhores rappers de todos os tempos, o astro Jay-Z
estava lá para conferir a atuação de seu agenciado Vini Jr, que infelizmente
optou por seguir o roteiro comportamental que marca a geração do menino 30+:
desistir rápido demais e fazer birra quando os desejos não são atendidos. No
final, o protagonismo esteve ligado as ideias dentro da caixinha arquitetada
por Ancelotti. Contra o Japão, já havia tido dificuldade em superar a dobra de
marcação. Contra a Noruega, seu auge
físico e de fintas se fez presente quando houve espaço no primeiro tempo. O
técnico da Noruega sabia que tinha escapado ileso, com mais sorte do que juízo,
e mexeu no time para a segunda etapa.
Entre outras coisas, a marcação e os
espaços dados diminuíram, e Vinicius, quando a Copa realmente importa para
seleções do tamanho da brasileira, teve medo. O pênalti foi o principal sintoma
do que estava por vir. Minuto a minuto, ele preferiu se tornar apenas mais um,
e escolheu se encolher ao sucumbir as estratégias dos dois técnicos europeus.
Não fazer questão de liderar moralmente a equipe mostrou que Vinicius participa
do comodismo, pior tipo de valor, para dentro e fora de campo, que um grupo de
homens pode ter. Na hora da verdade, em que povo brasileiro esperava ver o time
bailar com a camisa amarela, o que se viu foi a mão na cintura.
As crianças derramaram lágrimas em 1982 e
em 2026. Perder quando a respiração transita entre nervosismo e esperança
produz essas cachoeiras salgadas. Para os adultos, o que separa esses 44 anos
passa pela postura. Uma brincadeira infantil famosa canta os dizeres “mão na
cabeça, mão na cintura, um pé na frente, e outro atrás, agora ninguém pode se
mexer, estátua!”. E aí está o Z do Brasil de 2026! O segundo tempo foi
patético! A competitividade e o tesão de lutar pela vitória estavam muito
longe. Os atletas eram estátuas! Não correram errado porque sequer correram,
dividiram ou competiram. Houve falha na preparação física?
A notícia era de que os jogadores
noruegueses correram em bicicletas ergométricas dentro de saunas para emular as
condições climáticas que enfrentariam. Deu certo! Aceitar ficar na panela norueguesa
poderia cobrar um preço alto. E aconteceu. O momento em que a concentração no
jogo precisava estar mais atenta possível, Haaland, que poderia ser apelidado
de tubarão branco, sentiu o cheiro do sangue. Era hora de devorar a pentacampeã
e cagar as 5 estrelas que o misticismo midiático teima em vender para a nossa
população.
Quem acompanha a trajetória inegavelmente
vitoriosíssima de Ancelotti, sabe que escolhê-lo como treinador veio na esteira
de tentar acabar com a fila por meio deste futebol pragmático. Não há muita
diferença na forma que Tite, Felipão e ele veem futebol, por exemplo. Dá até
para dizer que Tite bebe nas fontes de Ancelotti, e isso significa limitação.
Um italiano que está no futebol há tanto tempo jamais romperá com o que lhe
rendeu protagonismo, reconhecimento e muito dinheiro. A escolha por jogar em
transição e apostar no talento a partir do espaço gerado tinha tudo para dar
errado, porque o Brasil não possui mais tantos talentos, e o futebol está em um
estágio onde talento não basta.
Em suma, o Brasil não é o Real Madrid!
Quando Vinicius decidiu a Champions League de 2022, na vitória de 1 x 0 do Real
sobre o Liverpool, uma boa mentira foi contada em torno de Ancelotti. Em termos
de futebol, o Liverpool era muito melhor que o Real, porque o time de Klopp
tinha identidade e filosofia. Perder a final foi uma dessas coisas que
“pertencem” ao futebol, como diria o “pofexô”, - este é um expoente do futebol
arte nos anos 90 -, porque o Liverpool amassou o Real durante o duelo de jogo
único. Courtois teve uma das maiores atuações de um goleiro em um jogo de final
da história do futebol, e um time com Kroos, Modric, Benzema e Vinicius sempre
terá chance de vencer.
Perder a Liga dos Campeões e o campeonato
inglês daquela temporada (O Liverpool fez 92 pontos naquela edição da Premier
League), foi triste como morrer de frio no sol. Poucas coisas machucam mais do
que ter de se conformar com a injustiça, na vida e no esporte. Porém, o futebol
de Klopp é filosófico a tal ponto que, sua maneira de enxergar o jogo já mudou
o futebol para sempre, e seus preceitos são usados mundo afora, certamente com
mais triunfos do que fracassos, e absolutamente mais orgulho do que vergonha. O
currículo de Ancelotti só garante conexão se houver resultado, e sintetiza o
quão equivocado foi contratá-lo. Achar que alguém é a resposta porque foi
vencedor e “parla” é estúpido, ainda que corriqueiro, neste país que confunde
sobrenome com cidadania. O náufrago do mister, abraçado ao nosso jovem 30+, foi
um trailer de filme ruim. Se depois de toda a parafernália, - da convocação a
risadinha para o goleiro da Noruega -, o filme se revelou um fracasso, quem
almeja uma sequência ou trilogia?
A
seleção parecia ter comido uma feijoada e, se Neymar não fosse tão chiliquento,
uma ilação que envolve maconha e feijoada seria possível para o imaginário
popular. Ele, fã de dancinhas no início da carreira, deveria conhecer a banda
mineira Skank, porque o videoclipe da música “É uma partida de futebol” foi
gravado no Mineirão, em 1997. O que
nosso jovem 30+ e os artistas não sabiam, é que este seria justamente o palco
do arrasador 7 x 1 em 2014, e que a seleção brasileira estaria, apesar de
milionária, totalmente em ruínas. Seria meio ridículo dizer que a CBF parou no
tempo. Ela nunca se moveu no tempo e a cartolagem política no futebol
brasileiro é um problema antigo. O que é mais recente é a dificuldade
permanente em lidar com o fato de que o Brasil não é o melhor time, em termos
de talento, há muito tempo.
O futebol é apaixonante porque costuma
rejeitar hegemonias, e a história em construção dá ao futebol do século XXI a
possibilidade de construir uma cultura de futebol sólida em qualquer
território. O futebol é o esporte mais popular da Terra. O que este país teve
foram 3 grandes gerações de jogadores de futebol. A geração que venceu 3 Copas
em 4 disputadas, cujo expoente máximo é o Rei Pelé. A segunda, que o troféu da
Copa não pôde tocar; esta é a de Zico. E a terceira: menos filosófica, menos
brilhante e muito mais dependente do talento; Ronaldo é a melhor representação.
Na prática, o Brasil não é o país do futebol; no máximo, dos estupradores.
Mc Guimê, Robinho, Daniel Alves e
goleiro Bruno. Estes são alguns exemplos de vergonha do futebol brasileiro.
Existe semelhança entre crimes e jogos de futebol? Não há comparativo. O que
acontece são sintomas. Veja: quantos boleiros passam pano para essa rapaziada?
E boleiros, lê-se do nosso jovem 30+ ao seu vizinho 20-. Ora, onde está essa
retidão moral que se cobra dos atletas? O senador Romário desfruta da Copa e o
mundo da bola gargalha. Onde está a lógica do método e do trabalho? O que se vê
é saudosismo, romantismo aos boleiros que ganhavam jogos e bebiam, negacionismo
sobre o tamanho de Messi no futebol, e simplificação dos raciocínios que
explicam a coleção de fracassos. Esse horror que encontra respaldo em nossa
cultura ajuda o time a perder ou vencer a Copa? Quem dera a crônica tivesse a
resposta. O que se tem é a constatação de uma soberba, que mora no topo de uma
árvore de um pretenso poderio futebolístico, galhos super falaciosos,
alimentados por uma mídia que trocou o jornalismo pela bajulação; e por uma
sociedade que trocou a leitura e o suor por vídeos curtos e apostas esportivas.
Essa arrogância, viciada no açúcar de que o “único penta é o Brasilsão”,
produziu uma seleção e uma torcida diabética: costura feridas que nunca
cicatrizam, e aparentemente, a cura está distante. Ver a luta de Paraguai, Cabo
Verde e México para permanecerem na Copa, e ver a maneira como o Brasil não lutou,
determina um comparativo que coloca todos os envolvidos em representar o Brasil
em 2026 em uma longitude abissal desta população. Talvez um bicampeonato de
Messi, que o colocará decisivamente ao lado de Pelé, ou um ressurgimento de
Itália e Alemanha que coloque no lixo esse mito das cinco estrelas, possa
produzir mudanças de verdade. Será que a seleção conquistará algo mais
importante que uma estrela? Será que o Brasil conquistará os olhos que miram as
estrelas? Será que o Brasil se reencontrará, dentro e fora das 4 linhas, com o
futebol de 1982? A ver.
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Perfeita análise, Parabéns!!!
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